07 agosto 2009

Gestos



Moledo em Agosto era algo que já não é e não volta a ser.
Mesmo que eu espere, encostada ao muro, que a lua cheia acabe de subir do lado de lá do monte.
Mesmo que os pescadores nocturnos continuem, no paredão, a preparar os iscos, antes avançarem pelo areal adentro.
Mesmo que se aviste, ao fundo, o Monte de Santa Tecla, envolto em neblina.
Mesmo que as mesmas famílias ou grupos de sempre venham dar o mesmo passeio de sempre, ao longo do paredão, quer a noite esteja amena ou varrida pela nortada.
Mesmo que a música de fundo, envolta nas paredes tricolores do P'ra Lá Caminha, nos embale...
Mesmo que as garrafas vazias de cerveja continuem a espalhar-se, pela noite dentro, nos muros do paredão, em frente ao Palma...vestígios de grupos de jovens.
Mesmo que as manhãs acordem, mornas, cerradas de neblina... ou claras e ventosas.
Mesmo que vigie, folha a folha, as minhas árvores...e conte os frutos pelos dedos.
Mesmo que regue os pátios, já regados pela chuva...
Mesmo que veja um pirilampo, ao fundo, por entre a folhagem.
Mesmo que os grilos cantem...
Mesmo que ouça o marulhar das ondas, ao longe...
Ou um comboio que passa...
Mesmo que ...
Os gestos permaneçam ... quase iguais.
Não passam de gestos.

Todas as manhãs, atravesso o areal e molho os pés, junto da tua rocha.
Molho os pés.
Este gesto é mais do que um gesto.

Amanhã, o meu neto faz um ano e terá festa.
E o sorriso dele e o brilho dos olhitos negros vão iluminar o dia.

Sonhar

Quero-te dizer
Que quero viver,
Viver até morrer
Mas sem nunca
Deixar de o querer,
Abre-te comigo
Diz-me as palavras
Que eu quero ouvir,
Ouvir para me deitar
E sonhar e dormir.

David (1995)

6 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

QUERO-TE DIZER


Quero-te dizer David
que amanhã o teu sobrinho faz um ano
e que se o faz
é porque a vida continua
e mesmo para lá da morte
para lá do que queiramos
abrindo-se contigo
nas palavras que sempre quiseste ouvir
para adormecer e sonhar
até dormir

Até dormir

Quero-te dizer


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Agosto de 2009

manuela baptista disse...

Isabel

Aqui vai um gesto muito pequenino mas que trás consigo a quentura de um sol:
http://historias-com-mar-ao-fundo.blogspot.com/

Com um beijo para o Miguel

Manuela Baptista

Jaime Latino Ferreira disse...

ISABEL VENÂNCIO


Agora já posso felicitá-La e ao Miguelito, aos seus pais também, com os desejos de muitas felicidades!

Com um beijinho deste Seu amigo


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 8 de Agosto de 2009

Brancamar disse...

Querida Isabel,

Cheguei este fim de semana dessas paragens e no último dia sentei-me no areal ao pôr do sol, olhando a Ínsua e o Monte de Stª Tecla, os pesacadores de que fala aprontavam-se junto ao mar e eu estendia os olhos e pensava: "qual será a rocha do David?" Pensei muitas vezes no David, Moledo teve assim algo de diferente para mim.
Aliás Moledo é muito diferente em Agosto, diferente do que era há uns anos atràs, mas quando o silêncio desce sobre a areal, a mesma quietude de sempre invade-nos e transporta-nos para outra dimensão...
Parabéns atrasados para o seu neto, que ele seja sempre a alegria que a pode acompanhar, apesar de tudo...
Mil beijinhos.
Branca

Isabel Venâncio disse...

Branca

Que bom saber que associa Moledo ao David.
A rochinha do meu filho fica na zona da praia em frente ao P'ra lá caminha.
Acho que é a única, ali.
Há outras mais à esquerda, no areal no sentido de Âncora, já mais longe.
Mas foi mesmo junto ao bar (de agora) "O Mergulho", que os meus filhos andaram quando eram pequeninos.
Sinto-me estranha, ali...

Um abraço
isabel

Brancamar disse...

Gostei tanto de saber Isabel, da próxima vez levarei comigo uma flôr.
Eu sou do tempo em que havia um único e grande bar na praia - "O Pica Pau", em frente à grande bola da Nívea que ficou ali tantos anos que me lembro dela desde a primeira vez em que cheguei a Moledo, com 14 anos. Entretanto já acompanhei o crescimento de outras estruturas, mas não ia a Moledo há uma meia dúzia de anos ou mais, por circunstâncias da vida.
Voltarei e levarei uma flôr para o David.
Beijinhos