26 junho 2009

David "O Bom"


Parque da Lavandeira

Levei o meu neto ao parque, onde tantas vezes levei o David, na convalescença. Onde, algumas vezes, a Olga o levou.
Levar aplica-se aos dois; ao David, também, porque as forças lhe faltavam.
O meu neto adormeceu, sossegado.
No meio do verde, dos pássaros, das mesas de piquenique, das gargalhadas das crianças que descem no escorregão, do azul que se vê por entre as folhas de cima das árvores, o medo de que o David tenha sofrido ainda persiste.
Tento convencer-me de que não.
No fim, não. Eu estava lá.
Mas sofreu, claro que sim!
Com 29 anos; sabia o que tinha, sabia ... mas combatia a dor dele ou o medo com esperança, com força de gigante. Com aquele acreditar de que se fala. E que, de facto, ajuda.
Ajuda a viver mais intensamente.
Ajudou-nos a viver mais conscientemente e com mais sabedoria.
Uma sabedoria que não se aprende; que surge de dentro, sem que a pensemos.
E que se instala.

No fim, o meu filho adormeceu, antes de perceber que não era só mais um adormecer.

E eu, nessa altura, não sei se sentia o medo que depois senti.
Sei que percebi que tinha que o deixar entrar naquela viagem estranha em que não sei se ele ainda me sentia, se me ouvia, se se apercebia de que tinha sempre, muito pertinho, gente que o amava e lhe segurava a mão.
E que no local onde escrevem o nome do doente, o irmão, acrescentou "O Bom"; David "O Bom"
Sentindo medo ou não sabendo se o sentia, permaneci, ali, naquele quarto nº24, do nascer ao pôr do sol e do pôr do sol ao nascer.
Fiz daquele quarto a nossa casa.
Mas, mesmo junto dele, já não tinha como lhe chegar.
E, agora, cada vez mais, sinto que devia não ter sequer fechado os olhos, naquele sofá, durante a noite, para o olhar mais tempo e fixar bem a imagem dele, na minha memória, para tão longa separação.
Tão longa separação!



Sei todas as histórias

Eu não sei muita coisa, é verdade.
Apenas falo do que tenho visto.
E já vi:
Que o berço do homem, o embalam com histórias,
Que os gritos de angústia do homem, o afagam com histórias,
Que o pranto do homem, o tapam com histórias;
Que os ossos do homem, os enterram com histórias
E que o medo do homem…
Inventou todas as histórias.
Sei muito poucas coisas, é verdade,
Mas adormeceram-me com todas as histórias…
E sei todas as histórias.

Léon Felipe

5 comentários:

jaime latino ferreira disse...

ISABEL VENÂNCIO


Minha Querida,

Então não havíamos de compreendê-La!?

A memória é um tanto como a compreensão:

Quanto mais nos lembramos mais julgamos que esquecemos, quanto mais compreendemos mais fica sempre por compreender.

No intervalo do sono reavivamos a memória, compreendemos que sabemos e sonhar faz bem!

Um beijinho


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 26 de Junho de 2009

António disse...

"Levei o meu neto ao parque, onde tantas vezes levei o David, na convalescença"...

manuela baptista disse...

E das histórias que contei
as histórias que inventei
as mentiras que criei
as coisas que eu não sei
este cheiro a lavanda
como gaveta de lenços
entalada entre dois medos
almofadinha de seda
alfazema de segredos

Manuela Baptista
Estoril,26 de Junho 2009

Linda disse...

Querida Isabel,
tantas vezes me passeio por aqui em silêncio, tantas vezes que querendo comentar me faltam as palavras e me embarga a voz. Aqui transborda o amor de Mãe!



«Se conhecesses o mistério imenso do céu
onde agora vivo,
este horizonte sem fim,
esta luz que tudo reveste e penetra,
não chorarias,se me amas!
Estou já absorvido no encanto de Deus,
na sua infindável beleza.
Permanece em mim o teu amor,
uma enorme ternura que nem tu consegues
imaginar.
Vivo num alegria puríssima.
Nas angústias do tempo pensa nesta casa
onde um dia estaremos reunidos para al´me
da morte,matando a sede na fonte
inesgotável da alegria e do amor infinito.
Não chores,se verdadeiramente me amas!»

"Santo Agostinho"

Um beijinho
Linda

Brancamar disse...

Olá Isabel,

Que dizer do seu texto triste e ao mesmo tempo tão belo?
Simplesmente um amor de mãe, único e incondicional, levado até ao limite das forças, forças que nestas circunstâncias se vão buscar não sabemos muito bem onde.
Deixo-lhe um beijinho, com o desejo de que descanse muito depois deste final de ano escolar.
Beijinho imenso.