31 dezembro 2009

Boa noite, meu filho



David
Este, afinal, é um dia como os outros.
Apenas, compramos uma agenda nova, onde ir anotando o que fazer.
Este querer chegar sempre mais longe no tempo, que os astros regem, é o instinto de sobrevivência a comandar e o temermos separar-nos de quem amamos.
Por isso, queremos sempre ir, avançar, passar mais um ano, juntamente com as folhas do calendário que, se valem para os que nos são queridos, também gostaríamos que valessem para nós...
E se a ordem se altera?
E se deixamos de seguir juntos?
E se alguém que devíamos querer acompanhar nos antecede?
Que desordem se instalou em mim com a tua partida!
Que confusa é a minha vida, meu filho!



Como se atravessasse um riacho, pousando os pés de pedra em pedra; tentando não largar uma, antes de avançar para outra que sinta bem segura ... assim me fui habituando a pisar os dias e a vida.
Assim, me vou habituando, lentamente a seguir o andar determinado e a sombra pequenina do Miguel que, orgulhosamente, olha para cima, já aponta para a mãe e diz "mamã" ou para o Sérgio e diz "papá".
E olha em volta para ter a certeza de que lhe prestam atenção e sorri.
É tão bonita a ternura do Miguel pelos seus papás ...
Se espreitares, hoje à noite, por cima do meu ombro, acho que os verás.

E vais gostar.
São tão bonitos!

Boa noite, meu filho.

24 dezembro 2009

Sonhos de Natal


David e avô - Natal 04


Sabes, meu filho

Parei, agora, um bocadinho, naquela minha azáfama de preparar o Natal para todos.
Está tudo pronto, com aquela antecedência que tão bem conheces: a Maria aflita que tu dizias que eu era.
Claro que sempre aproveitaste para ir roubando um bilharaco, um sonho, uma rabanada ... são melhores quentinhos, acabados de fazer
Mesa posta, tachos prontos, sobremesas em pratos bonitos...
Depois sempre quis ter um bocadinho, sozinha, para telefonar aos mais especiais.
Agora, hoje, é tudo diferente.
Hoje, parei, para pôr a minha vida em dia.
Uma vida sem ti ...
Relembro o fim da tarde, enquanto os tachos começavam a borbulhar na cozinha.
Lembras-te?
Sentávamo-nos os quatro no sofá, a relaxar. Tu, a fazer zapping, a fugir dos programas cor-de-rosa que sempre assaltam esta época e a que chamam o espírito de Natal.
O Sérgio e o Manel a lerem jornais. Eu, entre o sofá e a cozinha ou a agradecer mensagens de última hora.
Relembro os preparativos, teus e do teu irmão, antes de irem para casa do pai ou dos tios, jantar. Punham-se bonitos e perfumados. E davam-me um beijo, antes de saírem.
Regressavam ainda a tempo da distribuição das prendas.
No dia de Natal, ficavam comigo.
Um ritual sereno.

Agora, há poucochinho, senti-me, repentinamente, uma estranha de mim própria.
Novamente, uma dor no peito e uma agonia a subir na garganta. Como quem não sabe a que âncora de esperança se agarrar.
Faltas-me tu, David.
Vai faltar-me a tua prenda, sempre com uma dedicatória especial para aquela tua "querida mãezinha ..."
Sabes que tenho guardados os bocados dos papéis de embrulho, onde, tu, com a tua letra um pouco torta de esquerdino, escrevias essas dedicatórias?
Não diziam simplesmente "Para a mãe, ... do David"
Vinha sempre qualquer coisinha, a mais.
Dos presentes, não me lembro; mas tenho bem vivo cá dentro essas "coisas" ternas que escrevias.
É o terceiro Natal, sem ti.
É mais um dia, a somar aos muito longos e dolorosos e lentos que já passaram ... sem ti.

Eu sei, David, que gostarias que eu não tivesse esta lágrima sorrateira que vai espreitando ...
Eu sei, meu filho, da tua coragem e do teu não querer que eu sofresse tanto ...
Sei tudo isso. Tal como tu sabias que eu iria ficar perdida.
Sabias o quanto eu era "doida" pelos filhos.
Disseste-me "Tenho pena por ti, porque não mereces... (a morte de um filho)."
Conversámos muito.

Mas eu porto-me bem, prometo.
Tenho o teu irmão, tenho teu sobrinho, tenho o Manel ...
Talvez alguém te faça um brinde.
Talvez venha da tua avó que comprou uma vela branca cheirosa, para arder até ao fim do Natal, junto da tua fotografia de um outro Natal distante.
E eu vou erguer a minha taça...
A ti.

19 dezembro 2009

Certas formas de magia


"Unreal" de Bernardo Sassetti /Luz de David Sobral / Foto de Susana Neves

Por vezes, só o silêncio cria espaço...

Não o tenho em mim para desabafar esta ansiedade que não sei se é só saudade, que não sei se é só dor, que não sei se é ainda, e sempre, o mesmo medo que se instalou e não passa.

Apesar dos olhos doces e do sorriso radiante do meu neto…

Não há tempo em mim que não me arraste para um outro tempo em que me lembro de só sentir a força de um arrastar pesado e lento para não sei que outro tempo sem contornos, desconhecido e medonho.
E do resistir sempre.
Do não querer que o tempo passasse.
Não dessa forma.
Não daquela forma, não naquela busca vã, quase inútil, de não sei que felicidade que nos fora, definitivamente, negada.

E, no entanto, agora, não saberia viver sem os olhos doces e o sorriso radiante do meu neto …

Sofro porque … sofro. Simplesmente. Nunca mais poderei refugiar-me naquela forma de infinito que sempre pedimos.
Quando a cegueira da angústia e da revolta nos assaltam.
Chegamos (que ilusão!) a acreditar que sim.
Sabendo que não.
Já não.

E, no entanto, os olhos doces e o sorriso radiante do meu neto embalam-me numa certa forma de infinito …

Apesar do meu caminho pejado de lajes levantadas do passado.
Apesar das memórias inscritas, com letras das saudades do David, nas paredes lisas dos dias.

Estranho … este meu mundo, cá dentro!
Tão estranho!
Não sei como vivo sem um filho.
Não sei como viveria sem a magia dos olhos doces e sorriso radiante meu neto!


Obrigada, à Manuela Baptista, por aquela estrela chamada David.

Histórias com Mar ao Fundo

11 dezembro 2009

No meio do céu escuro



24h.

Moledo.
Aqui, as estrelas abundam e brilham mais.
É para onde os meus olhos se dirigem, mal abro a porta do carro.
Depois, já em casa, chova, faça frio ou vento ... abro as portadas e, no meio do pátio, lá fico eu, de cabeça erguida, a varrer o céu escuro, salpicado de luzes.
Talvez por ali ande uma outra estrela chamada David.
Se ainda não o é, lá no meio da Ursa Maior ou das Perseides, é com certeza, para já, uma estrela do mar.
Talvez uma daquelas que lançam brilhozinhos fugazes, de onde em onde, na crista das ondas.
Uma daquelas que mostro ao Miguel, nos livros, onde essas estrelas são brilhantes e ásperas ao tacto.

Moledo.
Onde, a proximidade e a distância do meu filho são paradoxalmente maiores.
As luzes dele brilham nas paredes só brancas da casa ...
Foi um sonho que sonhámos?
Foi real...
As luzes difusas, os focos, os apliques, os néons ... estão aqui ...
As luzes do David.
No palco da vida.
No palco do espectáculo; nos filtros de luz.
Sempre luz.
Com música ao fundo.

Moledo.
Na praia,
no areal, junto a uma rochinha,
uma luz
trémula, mas bem protegida do vento, pelo paredão ...
dir-te-á
(sejas tu luz ou som, um dedilhar duma corda da guitarra, um sorriso distante ou uma mão estendida que convida para dançar)
"É mais um Natal, David; estou aqui! "




Frank Zappa
Olá, caros ouvintes.
O jazz faz tarde de hoje é dedicado a um senhor que considero ser o meu guru da música. Falo do ilustre Frank Zappa, o grande Frank Zappa.
Este senhor é um marco na história da música.
Compôs e tocou todos os estilos: rock, pop, jazz, clássica, fez bandas sonoras para filmes...
Deve ter sido o músico mais profícuo de sempre dado que a sua discografia é extensíssima. Frank foi um multi-instumentista; tocava, com mestria, guitarra, vibrafone, piano e também bateria e percussão.

Foi uma personalidade polémica devido ao seu humor negro e às suas frequentes intervenções na vida política dos Estados Unidos.

Tenho muitos discos de Frank Zappa e foi difícil escolher um tema, mas como este é um programa de jazz escolhi um que é consideravelmente jazzístico para aqui ser apresentado.
O tema chama-se “Peaches en Regalia” e é uma autêntica bomba da música universal.
Oiçam com atenção e até logo que...

Jazz faz tarde

David Sobral
(2001)

30 novembro 2009

Moto contínuo



Como dizer, sem dizer a ninguém, que estou triste?
Como fazer para manter o silêncio, o único que me faz não chorar?
Como desfazer o nó que me aperta a garganta?
E esta vontade de ficar enrolada até que o Natal passe.
Até que o ano acabe e outro comece, ...
Mesmo que nada comece.
Mesmo que nada acabe.
E o tempo e o sol e a lua e os dias e as noites se vão sucedendo, na orla de um nevoeiro inquieto, monótono e cinzento, ao ritmo do bater do meu coração e nunca mais pelos ponteiros dos relógios que costumam comandar as vidas.
Sim, é de tristeza, da saudade que falo.
Uma saudade, de que só agora vou conhecendo o verdadeiro significado.
Uma saudade que me rasga em pedaços e me esvazia de força.
Como dizer, sem que ninguém me ouça, que estou dorida de saudade?

29 novembro 2009

Mais fundo



O meu sentir quer esconder-se mais fundo.
De tanto o querer encobrir dos olhos vizinhos amigos.
Este sentir-me trancada em mim.
Mesmo, no sossego e silêncio desta casa.
Onde nunca me foi difícil descobrir-me.

Chego aqui
Vinda de mim
O coração pesado
A cabeça envolta em cismas
A saudade à boca da garganta
Os sonos adiados
A inquietação de querer libertar
Esta tristeza que se acumula
Nas palavras proibidas
Nos olhares velados

Chego aqui!
Venho libertar-me duma dor
escondida.
Venho em busca de um sorriso
que me era dirigido.
Já não.

O meu sentir, sinto-o mais fundo.
Mais perdido.
Mais distante das palavras
com que me liberto
para recomeçar.
Já não lhe chego, mesmo aqui.

Como chegarei mais leve
Ao dia que se segue?


JAZZ FAZ TARDE



Joe Lovano

Olá, caros ouvintes, hoje o convidado do jazz faz tarde é um dos saxofonistas mais conhecidos e aclamados e chama-se Joe Lovano.
Este sax tenor é um inovador e o seu maior trunfo é conseguir ser totalmente livre e expressivo quando toca “por cima” de formas musicais tradicionais.

Lovano é filho do também reputado saxofonista Tony Lovano. Joe começou a tocar sax alto aos 5 anos, ensinado pelo seu pai.
Muito cedo, também começou a ouvir jazz e a interessar-se por outros músicos como John Coltrane ou Ornette Coleman. Depois do liceu, Joe Lovano foi para a reputada escola Berklee, em Boston.


O tema que vamos ouvir hoje faz parte do disco ...
Espero que gostem,


Até logo que...
David Sobral


28 novembro 2009

Existimos em cada um dos lados




"Os nossos são apenas gestos, projectos de cumplicidade consigo que sem sabermos, a podem magoar quando queremos aliviar."
É o que a Manuela me diz.
Sossegue, minha querida.
Sosseguem.
Ninguém me magoa, desse lado.
Sinto a cumplicidade.
Sinto a amizade.
Torna-se-me mais fácil, por não ter que confrontar a minha dor com a desolação de quem sente comigo mas não sabe o que me "há-de fazer".
Custa-me por eles.
Sempre sorri, ao David ... naqueles tão curtos 18 meses.
Habituei-me a não chorar quando não podia.
Ainda, agora, tento não "chorar" onde não devo.
Nem sempre consigo.
Não sei que fazer com o "não saber que fazer" dos outros.
Por isso, tento não falar com os meus ... sobre o David.
O David anda colado a mim.
Todo o dia, toda a noite ...
É assim ...
Continuamente.
Se o pensamento falasse ...
Não seria possível!
Mas fala aqui, onde se sente mais livre.

Fala aqui, para os olhos bondosos e pacientes que, daí, me ouvem ...
E respondem muitas vezes, nem que seja uma palavra, apenas.

Neste caminho de palavras, que vai de mim para aí e daí para mim, está o David.
Apenas, por um poucochinho?
O caminho que nos liga chama-se David.
E isso basta-me.

25 novembro 2009

O silêncio



Silêncio não é esquecimento.
Silêncio não é serenidade.
Silênio, este meu silêncio significa uma tristeza tão excessivamente pesada que não há palavras que a tornem mais leve.
Tenho ocasiões assim; em que tudo me parece impenetrável, incompreensível.
Tudo tão lento, tudo tão imenso, tudo tão intenso que não há sono que me vença.
E as noites escorrem por entre acordares entrecortados de sonhos em que nada é o que ficou; só o que foi.
E não há pastilhas, as mesmas de antes ou as novas, que me façam adormecer.
E acordo exausta, de olhos molhados, logo pela manhã …
Nos meus sonhos, sempre iguais, o David continua vivo, doente, muito doente e eu luto, numa luta que se repete e recomeça sempre e sempre …
E sei que ele vai morrer.
Tal como D. Quixote, luto contra moinhos, conta as telas de moinhos ... não sopradas pelo vento.
São gestos de dizer adeus.


09 novembro 2009

Dizer nada



Ah, se eu pudesse controlar o tempo.
E dormir, na hora de dormir.
Sobretudo, dormir.
Mas não, demasiadas coisas se enovelam, aqui dentro de mim.
O calar é excesso que não me permite, sequer, saber como começar.
Fui ver os "Três Cantos" com o Zé Mário Branco, o Sérgio Godinho e o Fausto.
Agora, só muito raramente, vou a espectáculos.
Emoção a mais, olhar o palco, olhar as luminusidades, ouvir os sons.
Sons, palco, luzes.
O David.
Não deixo de me emocionar. Sempre, ali no escuro.
As lágrimas vão caindo. Ninguém vê; não as seco.
Mas estes três cantautores, não podíamos deixar de os ir ver.
Era o David a empurrar-nos.
Dos três, qual o preferido do David? Não sei dizer...
Mas o Fausto, com aquela voz límpida e timbrada...
Mas o Sérgio, com aquelas difíceis ondulações de voz, paragens e avanços repentinos... inimitável
Mas o Zé Mário Branco e a poesia irreverente das suas canções e os arranjos musicais lindíssimos...
Não podíamos deixar de ir.

Talvez tenhamos sido primeiro nós, eu e o Manel, a encher a casa destas canções.
Foi, com certeza, o David a mostrar-nos, depois, uma outra forma diferente, talvez mais sensível de ouvir os mesmos sons.
E, no Coliseu, revivi os últimos tempos na companhia do meu filho. Ele estava lá, inteiro, ...
E chorei durante a maior parte do tempo, por não lhe ter sido permitido ver estes três cantores juntos. Ouvir muitas das canções, aqui, cantadas.
A multidão, que enchia o Coliseu, aplaudiu aplaudiu e aplaudiu em pé, como só o Porto sabe.
Eu fiquei sentada.
No meio da multidão.. ao meu lado, havia um lugar vago.


Do que um homem é capaz
As coisas que ele faz
P'ra chegar aonde quer
É capaz de dar a vida
P´ra levar de vencida
Uma razão de viver

A vida é como uma estrada
Que vai sendo traçada
Sem nunca arrepiar caminho
E quem pensa estar parado
Vai no sentido errado
A caminhar sozinho

Vejo a gente cuja a vida
Vai sendo consumida
Por miragens de poder
Agarrados alguns ossos
No meio dos destroços
Do que nunca vão fazer

Vão poluindo o percurso
Co'as sobras do discurso
Que lhes serviu pr'abrir caminho
À custa das nossas utopias
Usurpam regalias
P´ra consumir sozinho

Com políticas concretas
Ímpões essas metas
Que nos entram casa dentro
Como a Trilateral
Co'a treta liberal
E as virtudes do centro

No lugar da consciência
A lei da concorrência
Pisando tudo p´lo caminho
P´ra castrar a juventude
Mascaram de virtude
O querer vencer sozinho

Ficam cínicos, brutais
Descendo cada vez mais
P´ra subir cada vez menos
Quanto mais o mal se expande
Mais acham que ser grande
É lixar os mais pequenos

Quem escolhe ser assim
Quando chegar ao fim
Vai ver que errou o seu caminho
Quanda a vida é hipotecada
No fim não sobra nada
E acaba-a sozinho

Mesmo sendo poderosos
Tão fracos e gulosos
Que precisam do poder
Mesmo havendo tanta gente
P´ra quem é indiferente
Passar a vida a morrer

Há principios e valores
Há sonhos e há amores
Que sempre irão abrir caminho
E quem viver abraçado
À vida que há ao lado
Não vai morrer sozinho

E quem morrer abraçado
À vida que há ao lado
Não vai viver sozinho

José Mário Branco - Resistir é Vencer

28 outubro 2009

David "O Bom"




Gosto de ter, por aqui, a companhia de quem me lê, pacientemente, e não se cansa do que digo.
Porque digo, sempre (parece-me) o mesmo.
É engraçado como nos afeiçoamos a pessoas que são nomes, palavras e uma foto (excepto a Nini) - Jaime, Manuela, António, Graça, Branca, F. Ferreira, Marina, Filomena ... .
Tenho-os por companheiros, jardineiros amantes de cultivar estes jardins de palavras que ganham raízes e crescem, imitando as tulipas, os cravos, os malmequeres, os meus três pinheiros, a oliveira e um ou outro carvalho.
São palavras-flores de que só alguns jardineiros mais afoitos sabem cuidar, teimosamente e dia a dia, transformando-as em sentimentos de amizade, compreensão e tolerância.

Eu escreveria, aqui, tivesse ou não tivesse amigos daí.
Continuarei a escrever aqui, haja ou não haja, um dia, quem me ouça daí.
Mas é bom sabê-los aí, a ouvirem falar do David ... de mim, daqui.

Talvez, um dia, os nossos encontros não sejam tão frequentes ...
Ou talvez continue a ser tudo, exactamente, como é.
Escrevendo sempre (mas não tão bem como o J. Ferreira crê!).
Mas sempre...

Sempre
Que me sentir mais amargurada com a falta que o meu filho me faz.
Que o vazio se instale, à noite, com o chegar do crepúsculo.
Que, à mesa, olhar para aquele lugar, à cabeceira, onde ele não está.
Que comprar um cravo vermelho.
Sempre que vir um palco iluminado.
Sempre que ouvir certos timbres musicais - os sons do David.
Sempre que ouvir alguém chamar "David!"

O parceiro que me calhou, na escola, nas aulas de substituição chama-se David.
Acho que mais ninguém reparou.
Nem ele...

Virei...
Sempre que o areal cheire a algas e a água do mar vá lamber aquela rocha em Moledo.
Sempre que a senhora da estrada tenha a tenda da fruta montada, a caminho de Caminha.
Sempre que for à Grécia, àquele mar azul e transparente; e sentir o aroma das comidas, dos temperos, dos grelhados.
Sempre que uma melancia revelar o seu interior vermelho.
Sempre que procurar algum descanso, como o David fazia, em frente à Mezzo.
Sempre que vir as guitarras dele encostadas à parede, ao fundo da sala, em Moledo,
ou guardadas, aqui em casa.
Sempre que ouça o Zé Mário Branco, o Sérgio Godinho, o Fausto, o Lenine, a Maria João, o Mário laginha, o B. Sassetti, o Alexandre Frazão, a Lhasa, a Susana Bacco.... jazz, música cigana, africana, e tantas mais, mais e mais que repousam nas prateleiras e nos gavetões do escritório dele.
Digo ao meu neto "Vá, Miguel, tira uma música para, hoje, ouvirmos." E é assim que vou tentando ouvi-las todas.

Sim , acho virei aqui...
Sempre que ler uma notícia de jornal, sobre a (talvez) cura do cancro.
Sempre que a minha gata Valquíria me dá turrinhas nas pernas.
Sempre que vejo, pendurado no bengaleiro da entrada, o chapéu com que se protegia do sol, quando estava doente.
Quando passar por um clube de jazz.
Ou me detiver em frente da montra duma loja de instrumentos musicais.
Sempre que conseguir sorrir, perante a letra dele, torta, de esquerdino, nos papéis que guardo nas minhas gavetas.
Ou vejo a assinatura dele de criança - David "O BOM" (como os heróis da B.D.)

"O BOM" (de bondoso) foi o que o irmão acrescentou ao nome que identificava o David, na chapa do hospital, por cima da cama, no quarto 24, no dia 17 de Outubro.

Ele já não se apercebeu deste gesto de ternura.
Tinha adormecido.


26 outubro 2009

Deuses



Como andas, Isabel?
Devias vir, um destes dias, comigo, à minha igreja. O padre é um jovem e fala tão bem. Havias de gostar...
Olha, Isabel, não falemos do David; falemos de coisas alegres...
O teu David, Isabel, está num lugar bonito; vais encontrá-lo, um dia.
Ouça, professora, sofre porque quer; acredite que o seu filho vai voltar, vai casar, vai ter os filhos que queria.
Depende de si não sofrer...
Vá, fala de outras coisas.
Vai tudo ficar mais leve.



Vão sendo assim algumas conversas a que me atrevo, mas algumas cansam muito.
Apesar do bem que me querem.
Faço os possíveis por desligar.
É que eu quero falar do David, a quem não o conhecia.
Mas se não me querem ouvir; eu compreendo.
Sei que represento o nosso pior fantasma - a ideia da morte.

Falo da nossa fragilidade; falo daquilo que ouvi ao António Feio e ao A. Lobo Antunes - o fim da eternidade.
É uma eternidade que sabemos que não existe mas que assumimos como (quase) certa.
Não conseguiríamos viver se, todos os dias, nos víssemos ao espelho e nos disséssemos "Hoje será dia de estar vivo?"
Quando os ouvi, compreendi-os muito bem.
Não é fácil perceber exactamente a profundidade do que disseram.
Poque é algo que só se sente quando se vive nesse espanto de cada dia a ultrapassar.
Ambos, de formas diferentes, o experimentam.
O António Feio vive aprisionado entre o medo e uma força que o impele a avançar e saborear cada momento.
O Lobo Antunes passou a barreira do não retorno; foi-lhe concedido mais tempo.
Aprendeu a apreciá-lo melhor.
Se o terá ou não, é algo que se desconhece.

Ambos acreditam em Deus ou em algo transcendente.
Não escolheram acreditar agora. Já acreditavam.
Isso ajuda-os.
Mas não os invejo; não se força a existência de uma fé que não existe em nós.
Por isso, quando me dizem ... o que dizem... apenas abano a cabeça e talvez sorria. Talvez diga "Ando como posso e não peço mais."

Se houvesse deuses como os antigos - uma Vénus, um Poseidon, um Cupido, um Zeus, uma Minerva, um Apolo, uma Afrodite, ... - talvez existisse um que me ajudasse.
Mas não há.
As lágrimas que vão escorrendo pela minha cara, à noitinha; é o David quem as seca.

23 outubro 2009

Azul na noite



23 horas.
Saio da escola, de regresso a casa.
Só consigo trabalhar à noite; de dia, a pressão é demasiado grande.
Às vezes, tenho que ceder a vez às ambulâncias que passam. O hospital é logo ao lado.
A sirene apita. Sigo-a com o olhar.
Como se sentirá quem lá vai dentro?
Irá sozinho ou terá uma mão amiga? Sei que a solidão aumenta, nestas situações.
Sentimo-nos pequeninos, indefesos.
Isolados de nós próprios; quase nos desconhecemos.
Outra ambulância.
A noite cerra-se à nossa volta, a angústia aumenta e o medo leva-nos a procurar as urgências.
Avanço, então.
Atrás da solidão de quem ali vai.
De quem vai entrar deitado numa maca, transportado por estranhos que mais não fazem que o seu trabalho, mesmo que bem feito.
Atrás de quem vai ser olhado de cima por todos os que aguardam, à porta.
Que bom o David nunca ter tido que ir na ambulância!
Foi sempre o Manel que nos levou e ficava até altas horas da madrugada, cá fora, sentado no muro, à espera.
O David entrou sempre pelo seu próprio pé; nunca curvado.
O David nunca deixou de ter a minha mão fechada na dele.
Faz tanta falta uma mão na nossa, quando abandonamos o nosso canto seguro e nos entregamos à incerteza daqueles corredores cheios de gente que nos olha como mais um número ou uma cor no pulso e que pode esperar...
O David nunca foi assim ... transportado por uma luz azul a atravessar a noite, nas ruas da cidade.
Havia sempre uma mão, um ombro, uma voz que tranquilizava.
Nunca soube se era ele que precisava do amparo da minha mão ou se era eu que precisava de um pouco da enorme coragem dele.
Nunca o saberei.
Gostaria de pensar que era eu a mais solitária, nesses momentos de maior dúvida e desânimo que nos levavam a sair de casa, pela noite, há já muito, escura.
Assim saberia que o David se sentia forte e certo de que tudo se ia resolver.
Assim saberia que, pelo menos, o sofrimento dessa ansiedade o teria poupado.
A ambulância, já não a vejo...
Desapareceu no escuro da entrada da urgência do hospital, ali ao lado.
Continuo de regresso a casa.
As saudades do David apertam-me a garganta e não é raro percorrer o resto do caminho a chorar.
Sei que ele foi sempre o mais forte de nós os dois.
Sei que, até ao fim, se preocupou comigo.
Sei tanta coisa que aprendi com ele...
Mas as lágrimas não me pertencem.
Não sabem nada.

20 outubro 2009

Apenas uma


20 de Outubro
E agora?
Regresso sempre ao ponto de partida.
Olho para um lado, para o outro. Regresso atrás, procuro à frente.
Não reconheço o que vejo.
A minha realidade é tão estranha, tão fora de si que não me revejo.
E o cansaço de ligar realidades...
Acordo mãe e avó, percorro o dia de mão dada com o Miguel, a noite chama a professora e, ao deitar, é novamente uma mãe que adormece com a fotografia de um filho outro que lhe sorri, da mesinha de cabeceira, fingindo dormir também.
Como se faz para que todas estas sejam apenas uma?

20 de Outubro, repouso e um canteiro de rosas...
Recomeço, a partir do zero?
Como se faz para sentir que cada dia, dia a dia, se tece uma malha que nos envolva, nos sossegue e nos faça sentir que é, algures, por aí o caminho a percorrer?
Não sei a receita...
Tendo a ficar parada.
É assim que me sinto segura.
Não avançando.
Ficando aqui, fechada em mim.
Espreitando, de vez em quando, pelo vidro da janela.
Ou abrindo a porta a quem me visita e me convida a sair.

16 outubro 2009

Uma certa forma de não viver



A minha cabeça zumbe. Apesar de a sentir vazia. Apesar de não conseguir pensar para além do que fazer amanhã.
Como se todos os dias fossem sempre um novo dia, neste percurso de que não tenho referências.
Não sei para onde vou mas conheço, palmo a palmo, todos os caminhos de regresso, aqueles que me trouxeram aqui.
Nada dos dias que passam me prepara para nova partida como se a ferida abrisse novamente, a cada dia que amanhece.
E a cabeça rodopia e rodopia ...
Apesar de fazer deste espaço, que é meu, o único espaço onde posso falar ... há coisas que não se dizem.
Porque há dores tão excessivamente pesadas...
Porque há quem não quero magoar ...
Porque ...
Não posso ou corro o risco de enveredar por um discurso desconexo.
É o choro que substitui esse discurso.
Hoje sei, apenas, que há dois anos, naquela que foi a nossa casa, durante 6 dias, o David adormeceu ... provavelmente a esta mesma hora.

Libertou-se!?
Eu ainda não o libertei; ainda não lhe disse adeus...
"Mamã, vamos dançar?"
A mim, quem me libertará?

14 outubro 2009

Lãs



Voltei às lãs.
Para o hospital, daquela vez, também as levei.
Foi a única coisa que levei.
Convencida de que seria, talvez, apenas mais uma estadia na urgência.
À noite, estaríamos de regresso a casa.
Mas o tempo foi-se arrastando, depois, no quarto 24.
E, agora, regresso às lãs.
Liga, liga, meia, meia... meia... Miguel, não puxes o rabo à Jenufa. Liga, liga. E as agulhas avançam.

Olha, Miguel, queres que te conte aquela história daquele menino...
E as asas dos gansos que voam, e os gatos de outras histórias... era uma vez um menino chamado Miguel, de caracóis louros e ar muito espevitado.

E o sol naquele quarto e o David a alongar-se nos sonos; mais frequentes...mais longos. Também foi menino; gostava de gatas; preferia a Valquíria, gata de rua, preta e branca, grande...que lhe dava cabeçadinhas nas pernas. Teve pena de não ter levado a Valquíria para Barcelona.
Soubera eu...e teríamos levado.
A Tosca morreu passado pouco tempo.



Liga, meia..não, liga, liga; meia, meia. É assim. Mais um cachecol.
Está quase pronto.

Ora, este menino batia à porta da avó, todos os dias, de manhãzinha. E entrava lampeiro, sorridente, perna em riste...
Mas não era para a avó que olhava, quando empurrava a porta enorme e ele espreitava, pequenino, de lá de fora.
Era para as duas ou três ou apenas uma gata que o esperavam, esticadas, sentadas com os seus pés fofos, pelo hall ou umas a seguir às outras, na escada para o piso de cima.
A primeira brincadeira deste menino era desatar a correr, ainda agarrado ao dedo do pai ou da mãe, atrás da gata que lhe estivesse mais próxima.
Rapidamente, desapareciam, perante a investida do Miguel.
..........
Outubro, as lãs guardadas num saco, quietas.
As mãos ocupam-se do David, das mãos do David...
Liga, liga... estás a ouvir a avó, Miguel?
Pois a verdade é que lá em casa, quem tinha preferências e decidia eram as gatas; todas muito diferentes.

A Valquíria cautelosa e com a prudência da idade, mal o via dar um passo ou esticar a mão, pirava-se, rapidamente, pela escada acima.
Só a voltava a ver de longe. Bem gostava o rapazinho de se aproximar... mas nada feito.

A Muji, emigrante de casa dos papás do Miguel, mantinha-se nas redondezas, cautelosa e volta não volta, lá o deixava aproximar, fazer uma festinha e ia à vida dela ou passear para o telhado. Não apreciava confusão.

Sobrava a Jenufa que não fazia outra coisa a não ser andar atrás deste menino ou vir sentar-se na beirinha da manta dele, no chão. Estava mesmo a pedi-las.
Jenufa foi nome escolhido pelo David, no último Verão, ...mas isto não te conto. Um dia, talvez. Veio de Moledo.
Malha. Está quase. Os gansos e os gatos da Manuela continuam a espreitar por cima do meu ombro.
Falta rematar, mais uns pontos e fica pronto... Depois vejo como o "enfeito".
Nunca tenho ideia definida do que vou fazer... É sempre para ter as mãos e um pouco a cabeça ocupadas.
No hospital, dessa vez, não tirei as lãs do saco. Não valia a pena...


Desculpa, Miguel, distraí-me.
E o menino de olhinhos inteligentes e brilhantes aproveitava a proximidade e insensatez da Jenufa, a mais novinha, e atirava-se a ela... Era mesmo isso. Atirar-se. Primeiro fazia o que a avó pedia e acariciava, de mansinho, as costas e cabeça da gatinha.
Depois, entusiasmava-se (e de que maneira) e era um desatino.
Começava a dar-lhe palmadas nas costas...e ela aguentava, ainda, pacífica.
Então, sem aviso prévio, lá puxava o rabo da pobre da Jenufa que, coitada, era, sempre, salva, in extremis, pela avó daquele verdadeiro vândalo de gatas.
E, mais uma vez, serenados os ânimos, cada qual se punha a jeito para nova investida...


Liga, meia, gansos recortados no azul, gatos, o quarto 24, a beirinha de um poço escuro iluminada pelo sol, um menino chamado David, uma mãe... um convite para dançar.
......
O menino desta história chamava-se Miguel, como tu.
Vá, Miguel, devagarinho...assim festinhas fofas.
Olha que ela zanga-se.

12 outubro 2009

Saudade ... sempre mais


Moledo, os meus 3 pinheiros

Não as procuro, mas cada dia me traz as imagens de cada dia passado.
Acordei com um bilhetinho colado do lado esquerdo do peito "Foi num dia 12 de Outubro que o meu filho dormiu, aqui, nesta casa, pela última vez."
Estava colado naquele lado, onde o coração se partiu em mil corações pequeninos para que, depois do David, os outros tenham direito a um coração por inteiro.
É possível.
Dentro do possível, já que nada voltou a ser o que foi.
Esse estado de ser diferente, acho-o natural.
Dirão que é masoquismo.
Não é.
Apenas e sempre, é saudade.

11 outubro 2009

Um pinheiro que envelhece



Ando demasiado sufocada pelas lembranças de Outubro.
Pelas páginas dum diário, quase livro, que se vai encerrar.
Que é preciso encerrar.
Para que outros leiam e descubram que se pode ser um bocadinho feliz, mesmo à beira do abismo.
Para que o David se torne um dos "que se vão da lei da morte libertando".
Estamos novamente em Outubro e tudo é demasiado.
Em demasia, a lonjura do tempo que não parou.
Em demasia, o sol que torna tão brilhantes os dias e os que os habitam.
Em demasia, o peso que transporto
... mas não quero largar.
Em demasia, a saudade que se alonga, lenta e lancinante
... qual raiz de pinheiro que se entranha na terra...



Ao Jaime, à Manuela, ao António, à Branca, ao João, à Paula, à Eunice, à Marina
... a todos os que não conheço, conhecendo-os, no entanto, duma outra forma - um abraço de gratidão
por me lerem,
por me fazerem sorrir,
por não quererem que vá "por ali"
por me mostrarem outras formas de ver o mundo,
por não me criticarem,
por serem pacientes
e me ouvirem até à exaustão
falar do David!

04 outubro 2009

SEM ATENUANTES



Por sugestão do meu psiquiatra , que se entristece por não ver grande evolução no meu estado, consultei uma psicóloga que trabalha com ele em "certos casos" que tenham o perfil adequado a técnicas em que ela é das poucas especialistas no país.
Lá fui.
Lá chorei o tempo todo.
Lá contei.
Lá fui respondendo ao que me foi perguntando.
Lá voltarei, depois de a psi analisar o meu caso, para saber se o meu perfil se adequa.
Ou não.



Não, não tenho qualquer recordação desagradável com o David.
Nem durante a doença dele.
Só tenho boas lembranças do meu filho.
E da sua coragem...
Continuou a ser meigo.
Continuou a ser irónico.
Continuou implacável com as políticas "culturais" do Rui Rio e amigos.
Continuou a ter a casa cheia de música, desde o levantar ao deitar.
Continuou a "conviver de perto" com os "dinossauros" das cantigas de intervenção - Zeca, Fausto, Sérgio Godinho, José Mário Branco.
Continuou a ter um sentido de humor invejável.
Continuou a ter o mesmo espírito crítico que sempre o levou a defender os injustiçados e os mais frágeis.
Continuou a ser prestável e a preocupar-se com os outros, quando era ele quem estava em baixo.
Continuou a ter sonhos.
Continuou a defender que nem tudo tem que ser a preto e branco; teria ficado "delirante" com os resultados eleitorais do BE.
Continuou a não se dobrar.
Continuou a ser doce "Mamã, vamos dançar?"



A doença e morte... isso, sim!
São recordações terríveis.
São tragédias que se repetem e revivo, a cada dia que passa.
E mais trágicas, ainda, não tendo eu qualquer imagem negativa ou menos doce do meu filho.
Parece, talvez, estranho.
Mas é assim.
Nenhuma atenuante para a minha dor e saudade.

27 setembro 2009

Cansaço




Aos olhares e ouvidos alheios, não deve ter já qualquer significado este pulsar contínuo que sinto, vindo de dentro, e escorrega e ecoa como num poço fundo.
Este pulsar chama-se dor; chama-se saudade imensa.
É, ainda, chama quente e viva.
Sei que é quase invisível; um breve suspiro mais audível ou um desejo secreto de sair e voar; de deixar de ouvir o que se diz; de deixar de ver o que se vê.
Sair e deixar de estar ali ...
Para voltar atrás, por um tempo, de que só eu conheço as bermas, as barreiras, os perigos, as pedrinhas do caminho.
E regresso!
Regresso, sempre, atrás; olho por cima do ombro e revejo a estrada que trilhei ... terei sido eu?
Aquela que se ergueu?
Contigo!
Ou a que, agora, baixa os braços de cansaço e se entrega à solidão?



Não um adeus distante
Ou um adeus de quem não torna cá,
Nem espera tornar.
Um adeus de até já,
Como a alguém que se espera a cada instante.

Álvaro Feijó

18 setembro 2009

Diários



Dia 18, Setembro 2009.

O meu livro avança devagar.
Digo "o meu livro" porque espero ter a coragem e sobretudo a capacidade de escrever algo que os outros possam ler.
Não tenho o distanciamento suficiente para o apreciar.
Alguém me ajudará.
É um livro que conta a história duma mãe e de um filho que, subitamente, adoece e o mundo , tal como até aí existia, desaparece.
É apenas um diário, nada mais que um diário, de dias de luta constante, de algumas alegrias, de muitas quedas e de um olhar que nunca deixou de ser luminoso e terno - o do meu filho.
Custa muito. Mesmo muito reviver as palavras escritas por mim, nos vários cadernos e blocos que sempre me acompanhavam (e acompanham).
Para não me desviar, impus-me escrever/rever, em cada dia, o diário do dia correspondente, em 2007.
Talvez assim, chegue ao fim.
Do texto desse dia, nesse ano de 2007, constavam as seguintes notas rabiscadas a lápis, num marcador de um livro qualquer...
"Eu e o Manel fomos falar com o Dr. F. e informá-lo de que vamos outra vez a Paris, com o David, no dia 26. A conversa foi longa e triste, naquele consultório onde estive tantas vezes com o David, ao longo deste último ano e meio.
Sempre com um medo escuro colado a mim, mas com olhos fingindo o verde da esperança.
O Manel disse ao Dr. F. que só nos é possível fazer e pedir uma coisa – tudo o que, ainda, puder ser feito. Por pouco que seja! Independentemente de estatísticas. Independentemente, de tudo. (Por favor, gritava eu cá dentro. Por favor, não mo deixe morrer, assim, sem um dia seguinte...)
O Dr. F concordou, felizmente, connosco; que se tentará fazer o que o prof. Machover propuser. É a única forma de manter o David com uma chama de esperança.
Vivo até ao fim.
Dei um abraço ao Dr. F, quando saí.
Com os olhos cheios de lágrimas."
18.Setembro.07

Hoje, dois anos passados, fica aqui registada uma das histórias atrevidas do David,
Que viveu até ao fim.





“ Os Domingueiros “


Fui ter primeiro com o Zé porque ele mora mais perto e os meus joanetes já me estavam a dar música. Mandámos o Joca ir ter à paragem e esperar por nós.
Este é o dia da semana de que mais gosto, o dia da ida ó Shopping, ó Domingo. O passeio é todo ele muito fixe, desde a ida de camioneta até ao regresso de autocarro.

Quando chegámos à paragem ainda não estava lá o Joca, como sempre, mas eu e o Zé nunca nos ralamos porque até faz parte do desenrolar do nosso passeio. Quando o Joca chega, fingimos que estamos com uma grande cabeça e damo-lhe cabo da dele. Ele nunca leva a sério, sabe que nós estamos na tanga e finge também.
Quem fica mais incomodado são as outras pessoas que costumam estar na paragem por terem de ouvir três gajos aos berros.
Nós apanhamos sempre a camioneta que vem de Miramar, porque traz sempre as meninas mais boas de lá da zona. As meninas nunca nos ligam nenhuma; só as comemos com os olhos.
Nós somos uns porcos e ninguém nos liga. Dantes, éramos mais, fazíamos concursos de peidos. Ganhava o que fizesse sair mais pessoas na paragem seguinte. Mas, um dia, aconteceu-nos o mesmo. Uma vez, uma velhota, com casaco de peles e muitos anéis, ia mesmo ao nosso lado e levava o cão doente ao veterinário porque o animal sofria dos intestinos, como nos explicou a senhora. Bem, intestinos ou não, num é que a certa altura o bicho te manda uma bomba antónia que deixou o pessoal todo a vomitar?
Aquela cena era pior do que a bomba de Hirochina. Depois desse desafio, decidimos deixar de fazer o concurso porque vimos que só estávamos na Divisão B.

Desta vez, decidimos ir ao Catarina Shopping. Já tínhamos ido muitas vezes ao Via Arrábida e o primo do Joca disse que lá há melhores gajas. O primo do Joca é altamente. É ele que nos salva quando chove aos domingos. Arranja-nos uns filmes sexuais para vermos em casa do Zé. Ele tá sempre a dizer que quer é ir para a América procurar essas mulheres de mente aberta porque isto, cá, é uma tristeza.


Quando chegámos ao shopping, decidimos ir lanchar à Pizza Hut. Já estava farto dos gajos dos hamburgers.

Na Pizza Hut, comecei eu por ir pedir:
- Quero uma pizza hut, se faz favor - mas ele devia ser meio mouco e ficou a olhar para mim, com olhar de espanto.
Então, eu repeti:
- Era uma pizza hut, se faz favor. - Nós aqui não temos pizzas dessas; só destas aqui. - respondeu.
O gajo já me estava a irritar com o raio do papel que me estava a mostrar.
- Olhe, se isto é uma Pizza Hut, então eu quero uma pizza hut, O.K.!?- disse eu já a passar-me.
- Sim, isto é a Pizza Hut, mas nós não temos nenhuma pizza chamada hut. Só temos destas aqui, escolha uma, se faz favor! - teimou ele.
Eu já me estavam a atiçar as brasas, eu até estava a ser educado e tudo.
O Joca e o Zé só se grizavam, mas eu num estava numa de gozar.

- Chefe, se isto é a Pizza Hut, eu que-ro u-ma pi-zza hut. - tentei eu mais uma vez.
Poderia eu estar a falar bem de mais para o gajo?.
- Ó jovem, já lhe disse que não há nenhuma pizza chamada hut!!- berrou ele.
- Óóóóh, brincamos, esqueça lá o raio da pizza e dê-me um hambúrguer, fónix!!
Mas bem, quando o gajo ouviu esta, tripou completamente. Foi-se embora e chamou outro colega...
Mas eu também já num estava com nada para me chatear e fui-me embora. Fomos todos comer outra vez um hambúrguer, que, ao menos, num dá dores de cabeça.
Nem falámos mais no assunto, ficámos só a ver as gajas, mas já tinha o meu passeio estragado. Até viemos mais cedo para casa.
No regresso, no autocarro, já nem consegui curtir a viagem.
Como os autocarros, naquela hora, vão sempre cheios de gera, é fixe roçarmo-nos nas gajas que vão em pé com as mãos agarradas ao... àquela coisa metálica, ao alto, a que a gente se segura para não ir de rebolão até ao fundo do autocarro, quando o motorista se alembra de travar, assim do pé prá mão..
Mas, desta vez, não me apeteceu; o gajo da Pizza Hut deu-me cá uma nóia.

Espero que no próximo domingo o passeio seja melhor.

David Sobral 1995

14 setembro 2009

Uma avó


David num Carnaval - o mago


Tenho andado especialmente triste; uma tristeza mais pesada e teimosa do que a do costume.
É que o medo tem acordado colado a mim.
Os dias são sempre os mesmos outros dias, que passaram mas ficaram.
Permanecem num dia exacto, em Setembro.
Em que morri mais um pouco.
Em Setembro, a 11 de Setembro, mandaram-nos embora de Barcelona.
Nada a fazer.
E o pavor a não me deixar respirar e aquela lágrima a correr pela cara do meu filho.
E a lágrima a queimar-me, ainda hoje, o peito.
A mesma lágrima, agora, só minha.
E eu a encolher, a encolher; a não saber o que fazer.
A gritar cá dentro que não.
A certeza de que não parava ali.
A certeza de ir até ao fim do mundo, embora o fim do mundo estivesse logo ali..., ao virar duma folha de calendário, ... em Outubro.
Setembro trouxe Outubro.
Um Outubro de sol.
Um Outubro para últimas despedidas do mar de Moledo e da luz no monte, em frente ao pátio.
Um Outubro já de saudade.
Um Outubro de gestos lentos e sorriso lasso.
Um Outubro de carinhos e sorrisos cúmplices.
Um Outubro de força ainda, nas mãos entrelaçadas.
Um Outubro de dias claros mas de infinita penumbra pousada, pesada e profunda, no lugar do coração.
Estamos em Setembro.
E eu estou triste.
Mais triste.

E as lágrimas, que têm andado presas, soltaram-se quando li o que a Branca escreveu.
Que bem compreendo aquela avó que, antes de morrer, foi despedir-se do filho que já partira!
Que doçura e que saudade a acompanharam durante uma vida inteira e tão longa.
Eu percebo-a; eu sei que todos os filhos são filhos únicos.
Sejam dois, sejam dez.
Por um estranho e inexplicável processo químico, o coração é inteiro de cada filho, mesmo quando inteiramente esvaziado quando um filho se nos solta assim.
Para lá da distância de uma carícia na cara.
E, no entanto, mesmo vazio, continua inteiramente cheio e dedicado a cada filho, a cada neto vindo ou a vir, a cada Manel, apesar do peso imenso da perda.

O coração transmuta-se, não a cada dia, mas a cada hora, cada momento do dia, conforme o peso da saudade ou da força do amor.
É uma estranha forma de vida...



Obrigada, avó da Branca.

08 setembro 2009

Papagaios de papel


Moledo - O David e um papagaio de papel

A escola reabriu.
Apresentei-me no dia estipulado para a 1ª reunião geral.
Muitas caras novas.
Muitos beijos e abraços, depois de um mês de férias.
A nova Directora.
Desejo-lhe que tudo corra bem; afinal, participei na eleição dela, através do Conselho Geral.
Se não correr bem, também nós seremos, de alguma forma, responsáveis.
Reuniões de Departamentos.
Uma passagem pela Direcção para ver o meu horário.
Nocturno.
Chegada ao carro, fumei um cigarro e chorei, até casa.
E chorei à mesa, ao jantar.
.................
Nada simplesmente é igual.
Estranho-me no meio de tantos que foram meus parceiros, durante tantos anos.
Nada tenho dizer sobre a escola; sobre as férias; sobre o novo ano... sobre mim.
Aquela, que antes conheciam, não existe.
Eu era alegre, entusiasta, amiga e brincalhona; a 1ª a convocar jantares; profissional muito dedicada aos miúdos por quem chegava ao final do ano "apaixonada".
Agora, as imagens são difusas; pouco penetra esta carapaça que me envolve.
............
Não consigo evitar sentir-me deslocada no meio de gente.
Sinto-me sufocar.
Não estou preparada para enfrentar as alegrias ou o sucesso dos outros; ainda não tenho força para partilhar.
Não confundam; não é inveja...
São meus amigos, foram muito, muito amigos do David e só lhes desejo bem.
Eles partilharam da minha dor.
..............
Mas a vida tem que continuar.
Ou o mundo seria uma casa inabitável, já deserta, escura e silenciosa.
.............
Mas eu.
Eu preciso de tempo para mim e para os outros; muito tempo, talvez...
Repartido em bocadinhos, um pouco de cada vez.
Devagarinho.
Parando, muitas vezes, no caminho.
Trago uma outra vida comigo.


O tempo de cada dia, dedico-o ao meu neto.
É ele que, todas as manhãs, me abre a porta que dá para a vida.

04 setembro 2009

Moledo



Agosto.
Moledo em Agosto.
Calor, barracas sacudidas pelo vento norte, algas espalhadas pela areia, gaivotas no areal ao entardecer, cheiro a maresia, o forte ao longe e os amigos de sempre.
Findou.
Não da maneira como antes findava.
Com um jantar ruidoso de despedidas "Até breve, vemo-nos no Porto!"
Não com aquela já quase saudade do meu jardim ainda antes de partir; dos meus cinco pinheiros; do meu carvalho a crescer; dos poucos mas saborosos frutos que as minhas árvores regateiam e que eu recolho com todos os cuidados e vou mostrar cheia de orgulho; do sol luminoso da manhã no pátio; das mãos na terra; dos foguetes das festas, ao longe; dos jogos de sueca e de damas chinesas, intervalados de cantorias desafinadas; do jantar anual no Ancoradouro do Alfredo; da chuva de estrelas das Perseides; da sensação de que ali, na segurança da rotina dos dias e noites de Verão, estávamos protegidos e nada de mal nos podia acontecer...
E, no entanto, houve um Agosto sem Moledo que quebrou todos os encantos.
Deixei Moledo em Agosto.
Não da maneira como antes deixava.

Voltarei...; foi ali que deixei o David.
As luzes do David iluminam a noite, na brancura das paredes.
E volto sempre.
Sei que todos os encantos podem ser, um dia, quebrados.



O meu jardim

O meu jardim de sons cresce
Cresce porque eu ali estou
E por todo o meu amor que lhe dou
Não pelas coisas que tu dás,
Coisas sem valor
Coisas que eu jamais darei.
E cresce o meu jardim de sons
Pela mão que sobre ele pousei
E sabendo do amor que lhe dei...

16 agosto 2009

Isabel Alves Costa



Tenho tantas saudades do meu filho!!!
Sinto-as ao acordar e, por sobre o ombro, me acompanham até a lua desaparecer para que o sol regresse.
Já não penso.
Porque sinto cada momento como mais um momento em que me sinto só.
Este sentir apoderou-se do pensar.
Vive comigo; sou eu... lá dentro.
Não se vê de fora.
Não se vê no reflexo que vejo de mim, no espelho.


A cada passo, recordo Barcelona.
Persegue-me aquele inferno que lá passámos, em Agosto, há 2 anos.
Despedimo-nos, então, de Moledo, na esperança de voltarmos.
Todos!
Nunca regressámos.
O David não regressou.
Eu não regressei.
Não se regressa quando se leva um filho pela mão até ao fim do mundo.
Porque a morte é, de facto, o fim do mundo!

E, hoje, morreu a Isabel Alves Costa.
Foi professora e amiga do David, que tinha grande consideração por ela.
Foi ao funeral do David; deu-me um abraço e falou-me dos muitos sonhos do meu filho e do desejo de, um dia, concretizar alguns.
O Porto deve-lhe todo o amor que tinha à Cultura.
A notícia da morte dela ensombrou-me o coração.
A Olga sentiu a morte dela; era amiga do David.
O David ficaria imensamente triste.
Eu fiquei triste.
Eu e a Olga temos saudades do David.
Da tristeza que o David sentiria com a perda desta amiga que ficou e, agora, o acompanhou.

Talvez exista um lugar em forma de palco e luzes, onde se encontrem, e daí nos vejam, protegidos por fios de sorrisos e dores que se entrelacem; vindos do passado e feitos de lágrimas.

Adeus, Isabel (amiga do David)

07 agosto 2009

Gestos



Moledo em Agosto era algo que já não é e não volta a ser.
Mesmo que eu espere, encostada ao muro, que a lua cheia acabe de subir do lado de lá do monte.
Mesmo que os pescadores nocturnos continuem, no paredão, a preparar os iscos, antes avançarem pelo areal adentro.
Mesmo que se aviste, ao fundo, o Monte de Santa Tecla, envolto em neblina.
Mesmo que as mesmas famílias ou grupos de sempre venham dar o mesmo passeio de sempre, ao longo do paredão, quer a noite esteja amena ou varrida pela nortada.
Mesmo que a música de fundo, envolta nas paredes tricolores do P'ra Lá Caminha, nos embale...
Mesmo que as garrafas vazias de cerveja continuem a espalhar-se, pela noite dentro, nos muros do paredão, em frente ao Palma...vestígios de grupos de jovens.
Mesmo que as manhãs acordem, mornas, cerradas de neblina... ou claras e ventosas.
Mesmo que vigie, folha a folha, as minhas árvores...e conte os frutos pelos dedos.
Mesmo que regue os pátios, já regados pela chuva...
Mesmo que veja um pirilampo, ao fundo, por entre a folhagem.
Mesmo que os grilos cantem...
Mesmo que ouça o marulhar das ondas, ao longe...
Ou um comboio que passa...
Mesmo que ...
Os gestos permaneçam ... quase iguais.
Não passam de gestos.

Todas as manhãs, atravesso o areal e molho os pés, junto da tua rocha.
Molho os pés.
Este gesto é mais do que um gesto.

Amanhã, o meu neto faz um ano e terá festa.
E o sorriso dele e o brilho dos olhitos negros vão iluminar o dia.

Sonhar

Quero-te dizer
Que quero viver,
Viver até morrer
Mas sem nunca
Deixar de o querer,
Abre-te comigo
Diz-me as palavras
Que eu quero ouvir,
Ouvir para me deitar
E sonhar e dormir.

David (1995)

29 julho 2009

Agora




Houve o antes e há o depois.
Tudo diferente.
É mesmo assim...
Não sabia, porque nunca pensei nisso.
Nunca se pensa na morte (que virá) de um filho.
Bloqueia-se.
Impossível qualquer reflexão.
Rejeita-se.
Mas, agora, vejo.
Agora, sinto.
E o meu sentir é diferente.
Eu própria me espanto com o meu novo modo de estar.
Sou, de facto, outra pessoa, num corpo semelhante.
Alguém que se reconstruiu com pedaços do passado.
Alguém que se ancorou no que se faz e não no que se diz.
Alguém que não projecta o futuro.
Vive cada dia.
Alguém que se formatou para resistir, ausente, aos outros e às suas pequenas "dores".
Alguém que, onde, antes só encontrava escolhos, vê, agora, que tudo é relativo.
E suspira.
Serão penas imensas resgatadas duma dor pungente?
Valerão a minha inquietação?
Valerão, sequer, que se inquietem os outros por tão pouco?
Sou, mesmo, uma pessoa completamente diferente.
Derrotada.
Muito protegida no seu escudo moldado pela tragédia.

Serei pior? Melhor?
Pior para os outros?
Melhor para mim?
Não sei.
Diferente.
Mais lúcida.
Mais exigente.
Menos disponível.
Mais frontal.
Menos tolerante.
Mais calada.
Menos sociável.
Indiferente, perante "dores" menores deste carrocel que se chama vida.
A minha forma de ver as coisas, ... filtro-a pela "visão do Mundo" do David.
Era o nosso "filósofo de serviço".
E
Aprendi a apreciar a luz e outras cores, para além do preto e do branco.
No palco, nas pessoas, na vida.
Não aprendi conviver com a ausência dele.
Nem a suportar a saudade.



Envoltura

Só quando te apercebes é que te mexes.
Vives desenfreado, numa avidez constante
O que é esta mescla coisa, a que chamamos vida?
Quem está aí para responder sobre isto, que passa de rompante?
Que só nos seus últimos momentos é tão desejada.
Só aí nos apercebemos do quanto desperdiçámos.
Só aí nos lembramos daquela estrela que nunca alcançámos.
E, quando tudo acaba, que será que nos resta?
Será que todo este cansaço ainda presta?
Eu não quero saber...
Até ao dia em que vou ter de conhecer
A razão que nos leva a deixar de viver.

David (1995)

27 julho 2009

Aniversários




Julho 2009.
Julho de 2007.
Rupturas.
Não baixar os braços apesar de os sentirmos mais presos pela crueza da inevitabilidade.
O coração mais perto da boca.
Um castelo, construído de esperança, prestes a desabar.
Ainda não; ainda é cedo.
Só mais um pouco, aqui, ou em qualquer lugar.
Mãos estendidas a um tempo que corre.
E corre e corre...
E a areia do tempo a escorrer por entre os dedos.
E o coração, líquido vermelho, no meio de tanta dor.
Os olhos transparentes; duas crateras negras dum vulcão antigo.
Só um pouco de tempo; é o que peço.
Mas não! Tempo ... já não há.
Já não houve. Colhemo-lo todo, lentamente, sedentos, no côncavo das mãos.
Não há.
Esgotou-se ... esgotámo-nos a persegui-lo.
Parou num dia azul e quente.
Passou ... e eu fiquei, nesta estranheza que sou eu própria, dividida em dois, num tempo que não sei contar.
Dia de anos, 27 de Julho...
54 anos?
Ou apenas 2, de uma vida desgarrada do tempo?
Tu, 29!
Quem sou?
Se o tempo de mim tanto levou?
E apagou memórias doces...

Queria portas e janelas fechadas. Silenciar as vozes.
Que o céu escurecesse e fosse amanhã.
Novo dia igual aos outros, despido de emoções.
Ficar aqui, nesta casa sem portas nem janelas.
Sem ecos de fora
Distante de mim.
Tendo por companhia quem me escuta no silêncio.



Oferta de um aniversário longínquo


Eãm Lebasi (Mãe Isabel)

Nunca tive jeito para frases poéticas,
não domino o estilo,

nem a rima,

nem o verso,

nem o falar do amor,

da alegria, da injustiça ou guerras.

Mas sinto.

Eu sou assim

sem jeito para escrever.

Penso e repenso.

Mas escrever...

Nada.

A mente fica bloqueada

e a mão paralisada.


David


Você não me ensinou a te esquecer

22 julho 2009

Isto e aquilo



Mas o sossego não vem; nem a serenidade volta.
Uma barreira impede-me de ver mais além; não me importo.
Que veria? Nuvens por cima de mim e uma pesada nostalgia.
E o tempo, sempre o tempo a teimar em me empurrar por este plano inclinado do futuro... e eu a resistir; a tentar não avançar.
O tempo afasta-te e eu recuo.
Afasta-se mais e eu recuo mais.
Sem uma asa invisível para me abrigar e repousar desta viagem contínua entre este agora, a que ainda pertenço, e o antes, o quase há pouco, a que estou presa pela ordem natural das coisas.
Pertenço aqui e pertenço lá.
É possível?
Pois se é assim que vivo!

Não peço que me compreendam.
Apenas que me façam companhia...
Não peço que me consolem.
Apenas que me contem histórias, fora de qualquer moral ou sentimento de culpa.
Não peço que me apontem tudo o que tenho aqui.
Sei bem o que tenho aqui...
É muito.
Por isso, fico.
Quase inteira.
Aqui.

Embora eu me empurre, continuamente, de lá, onde me perco e me quedo, a qualquer momento de súbita saudade.

Sou isto, duas.




Ben Monder

Olá, caros ouvintes, bem vindos a mais um "jazz faz tarde".


O convidado do programa de hoje é o guitarrista Ben Monder. Este senhor é jovem mas já é uma referência para os novos guitarristas. É um inovador no que diz respeito ao som de guitarra eléctrica.

Ben Monder trabalha quase sempre como sideman e espero que ainda se lembrem do que é um sideman.
Entre muitos outros músicos e grupos, Ben Monder faz parte da orquestra da compositora Maria Schneider.
Ben já gravou discos em nome próprio ou a solo, como quiserem: Flux, Dust e Excavation são os nomes dos seus discos.

Oiçamos o Ben Monder e até logo que...jazz faz tarde.

David