22 outubro 2008

O sentido da vida


O David será a minha estrela do mar.
Que mais posso reafirmar? Que sinto hoje o que sentia ontem, há um ano...
Que não percebo o que nos aconteceu, por aqui, nesta casa um pouco vazia; no campo que vejo em frente, exactamente do mesmo lugar em que o vias e que parece mais cinze que verde.

Aqui te sentavas, depois de dobrar as mangas da camisa até ao cotovelo...depois de colocares o CD com a música "Happy, happy, happy... my life is good!" Era a tua forma de esquecer a quimio de ontem, os exames a fazer amanhã.
Que força, a tua.
Que força de viver me transmitias, a mim que estava na secretária em frente à tua e que engolia, em seco, o medo...
Nada será como dantes!
Tentarei a tua força para enfrentar cada novo dia.
Não deixarei de tentar a mesma seriedade no trabalho...
A minha vida será, apenas, uma imitação imperfeita da tua.



E A VIDA CONTINUA

O tempo passa e na espiral do espaço/tempo, no seu epicentro, curvilínea, à linha que a julgava recta não lhe poderia encontrar o fim nem o princípio não fôra recta nem dela lhe observava por ilusão o encurvado subtil e as suas descontinuidades aferidoras por religar, alinhavar como quem acerca de si se interroga mansa e receptiva, a medo também, sobre a alegria que temperada na e pela dor ainda tem para nos dar.

Como irá ser, valerá de quase tudo, que objectivos, como refazer rotinas e alimentar o diz que diz-se, tornar a vida num poema, aprender e ensinar, sugerir ou palpitar, encontrar o ponto de equilíbrio, refazer os traços vincados por profundos sulcos num caminho a desbastar sempre de novo!?

Hesitante e a medo, sem querer ver, tão pouco, conspurcada a sua dor, ali, exposta, com direito a cidadania plena, reabre as portas e espreita, dá-se de novo, readquirido o perfil, enriquecido, envergonha-se de o dizer mas afirma-o, dá-se à vida que tem, queremos que tenha de continuar.

E com a tristeza sempre cantada, sempre com lugar a ela, à melancolia, à poesia, ao David e ao amor, ao tempo que se ganha e que nunca é tido por perdido.


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 21 de Outubro de 2008

6 comentários:

Anónimo disse...

Isabel, parabéns pela sua força! Conseguir pintar paredes novas, com os alicerces ainda tão frageis, só mostra que o David tem a quem sair!
Um bj grande,continue, MM

Albertina disse...

Força, Isabel...
Eu estou por aqui, quando precisar.
Um beijinho

Filomena disse...

Isabel;
Tenho chorado muitas vezes a ler o que escreve, mas nunca chorei tanto como hoje.
Li a beleza das palavras, senti a tristeza na passagem, vi uma mulher"nova" ou pelo menos a tentar sê-lo... Tanta coisa Isabel, tanta,
que nem lhe sei dizer.
Qua Mãe Linda o David tem, tão digna de semelhante filho.
Como ele teria ficado orgulhoso de si. Queria dizer mais coisas, poder olhá-la nos olhos, dar-lhe um abraço forte, muito forte.
Será assim, o recomeçar?
Estamos todos, aqueles que a lemos e os outros que a conhecem pessoalmente a torcer por si.
e para os seus alunos, que honra tê-la como professora!
Aceite eu um beijo.
Filomena

Brancamar disse...

Boa noite Isabel,
Que posso dizer deste post? Lindo e simultâneamente triste, mas fala-nos de vida, de amor e de dádiva e isso já percebi que a Isabel sabe fazer muito bem. E a vida continua com a dádiva de si própria e isso é a maior riqueza no seu percurso, a Isabel sabe disso.
Deixo também um beijinho para o Jaime Latino, que fez uma resposta muito bela à sua mensagem.
Um abraço amigo Isabel.
Branca

Zahir disse...

Olá Isabel,
Saudades que vão corroendo a alma; saudades que vão dando força para viver o passado e tentar aceitar o presente. Saudades que tentam ocupar o lugar da dor mas que nem sempre são bem sucedidas...
Saudade, dor, tristeza, alegrias do passado... Um turbilhão de emoções que nem sempre conseguimos definir...
Beijinho carinhoso

olga disse...

A sua estrela do mar aparecerá sempre no brilho da água do mar, na estrela que brilha no céu, na borboleta que poisa nas flores do seu jardim... Estará sempre perto para que vá percorrendo este novo percurso. Beijinho grande