16 outubro 2008

"Mamã, vamos dançar?"





Devia parar de pensar.
Dizem.
Devia afastar o pensamento.
Insistem.
Ler. Almoçar com as amigas.
Continuam.
Mas...
Como?
Que mãe que conviveu 18 meses com um filho jovem, padecendo de cancro ... como não pensar em todo o tempo que passaram juntos?
Em todos os momentos, bons (porque os houve) ou maus.
Como não pensar que foi, nesta altura da noite, num dia 16, numa terça-feira de Outubro que ouvi as últimas palavras do filho?
Como não pensar nessas palavras que selaram o percurso de uma morte jovem,
cruelmente anunciada,
apesar da esperança,
apesar do acreditar,
apesar da coragem,
apesar da multidão de amigos a ajudar,
apesar da fé de alguns,
apesar da resistência física,
apesar de "há coisas que não podem acontecer".
Penso! Como não??
Essas palavras, ditas consciente ou inconscientemente, andam sempre comigo.
Acredito, acredito mesmo, que essa mãe, a quem ele se dirigiu, morava dentro do David.
"Mamã, vamos dançar?!"
Estendeu-me a mão e sorriu.
E eu estendi-lhe a mão...
sorria
chorava por dentro
louca de dor
e de saudade, já
a morte anunciada...



Não dancei, mas foi como se tivesse dançado.
Passado um pouco, ele adormeceu.
E não acordou, mais, nessa noite.
E eu ali, a olhá-lo com saudade
já ...
E não acordou no dia ou noite seguinte.
E eu, ali
a minha mão saudosa
já ...
Nem acordou na outra manhã seguinte.
E eu, ali
atenta ao respirar
doida de saudades
já...

Continua o convite para a dança (ele gostava e eu também, de dançar...).
Quero pensar que a mão dele continua estendida.
Que me sorri.
Mantenho a minha mão estendida.
Quero pensar que aquele último sorriso
foi para mim.
Quero acreditar que o David soube,
sempre,
que eu estava ali,
junto dele, com a minha mão na dele.
Quero pensar que,
algures,
na penumbra dum tempo esquecido
ou num espaço transparente e luminoso,
as nossas mãos
se tocam...

"Mamã, vamos dançar?" é o título do livro a terminar.
Conta a nossa curta história de 18 meses, minha e do David, vista pelos meus olhos de mãe.
Porque, mesmo acontecendo,... há coisas que não podem, mesmo, acontecer.

"Mamã, vamos dançar?"


9 comentários:

Brancamar disse...

Isabel,

Passo em silêncio, porque amanhã provávelmente vou conhecê-la e poder dar-lhe um abraço em silêncio também, porque estes dias são seus e do David, nada do que possamos dizer faz sentido.
Um beijo e até amanhã.
Branca

Cristina Arriaga disse...

Isabel,
Não imagino como possam estar a ser estes dias...
Se me permite, acredite que a mão e o sorriso estão e irão estar sempre presentes... Existirão outras formas de perpetuar a presença que não o acreditar, a recordação...
Quero, acima de tudo, dizer-lhe que deixo todo o meu carinho, compreensão e disponibilidade.
Um beijinho, inundado de carinho
CA

Anónimo disse...

Isabel, amiga
Sim, quero tratá-la por amiga.
Do que conheço de si, neste blog, sei que aceita "amiga".
Porque a Isabel é uma voz preciosa neste deserto de emoções que se calam e que são as das mães que perderam filhos.
Conheço-as.
Tento apoiar algumas.
Já mostrei a algumas o seu blog. Para que percebam que o sofrimento delas é partilhado e que não têm que ter vergonha.
Algumas escolhem o caminho da negação que as impede de ver o tal "lá fora" de que fala e encerram-se.
Não abrem uma janela... Enclausuram-se.
Algumas entregaram-se a uma dependência de ansiolíticos e deixaram de viver para os outros filhos...
Sofrem, claro.
A Isabel sofre o mesmo, talvez mais.
Não escolheu um caminho fácil.
Por isso a dou como exemplo.
Consegue viver a vida que lhe foi destinada.
Até um destes dias.
MJoão

Anónimo disse...

Doce Isabel

Consegue, sempre, deixar transparecer mágoa, muita revolta mas também um imenso carinho pelo David.
E até serenidade, apesar da tristeza.
Os seus textos são sempre tão cuidados.
Claro que aquele "Mamã, vamos dançar?" só pode ter sido para si.
Não tenha a mais pequena dúvida.
Um abraço
Dorinda

Anónimo disse...

Um beijinho, apenas um beijinho.E acredite...o David partiu a dançar consigo! E estará à sua espera sempre a dançar.
MM

Albertina disse...

Isabel
Não posso dizer nada para além de lhe prometer que amanhã dedicarei uma oração ao David.
Um abraço muito, muito apertado
de mãe para mãe

Carecaloira disse...

Isabel,

um beijo bem grande e um abraço apertadinho

Marina

Pé de Salsa disse...

Isabel,

Já se passou um ano e parece que foi hoje. O David estárá sempre presente.

Resta-me deixar-lhe um beijinho.

Isa
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http://pobresericos.blogspot.com/2007_10_01_archive.html

Brancamar disse...

Hoje, 18 de Outubro, andei por aqui, passei em silêncio, um respeitoso silêncio...um pudor enorme pela sua dor impede-me de me aproximar mais...e só escrevo agora no final do dia para que não lhe pareça que fiquei indiferente àquela noite de ontem.
Não lhe saberia explicar por palavras o que senti, dir-lho-ei em breve quando amadurecer a emoção e o prazer de ver tão jovens talentos trabalhar com enorme qualidade um reportório que é um património nacional.
Isabel, senti-me inolvidávelmente bem, há muito não via um tão bom espectáculo musical e gostei particularmente do momento final, aquele arranjo tão suave de Grândola tocou-me imenso e não estou a dizê-lo por dizer, pois só levei o folheto na saída e soube aí que tinha a arte do David.
O David era um talento, sentiu-se, fiquei a conhecê-lo melhor.
A si obrigada porque ao falar na Homenagem acabou por me proporcionar uma das melhores noites de espectáculo que já vivi.
Estou ainda em estado de graça, ainda a saborear, porque estava tudo perfeito, o talento e o bom gosto. Quando há qualidade ela sobressai ainda mais num ambiente simples e sóbrio, nem fazia sentido que fosse de outra forma.
Felizmente ainda vão existindo por este país grandes valores e comove-me particularmente vê-los entre a camada jovem.
Vou ficando por aqui um pouco mais em silêncio, mas voltarei a falar consigo quando passarem alguns dias.
Um abraço enorme.
Branca