06 setembro 2008

Silêncios pesados...



Não posso falar, não posso parar, não posso deixar de fingir, não posso continuar a deixar que certas palavras me magoem, não posso continuar...
Sei que sorrio; mas é só o gesto de...
Assim não dá!
Existo, sinto...
Sinto a inexistência de sentir, aqui ao lado.
É Setembro e vai passar.
Mas Outubro permanece.
Outubro vai continuar.
Outubro vai ficar.
A mão que me podia ajudar está fechada
Não se estende
Apesar de todas as outras que se abrem.
A que me podia ajudar
Foje a qualquer contacto.
Será sempre assim?
Assim, não.
Não tenho força para tanto.
Não dá.
Ainda agora estou a tentar regressar.
Valerá a pena?



Se conseguisse
chorar rios de infinita solidão

afastar daqui estranhos pensamentos

ser como os outros

ser como ninguém!


Pergunto-me o que irá

Acontecer a esta alma desfeita...

David Sobral (1996)

6 comentários:

Albertina disse...

Claro que vale a pena, Isabel! Tem que valer a pena, por si, pelos familiares que a rodeiam, por nós que a lemos e pelo David!
Tem que regressar à vida, minha amiga (desculpe considerá-la assim, se não for esse o seu desejo).
Use o que sabe da vida e a sua forma bela de o escrever, para ajudar quem precisa...
Use as suas lágrimas para regar outros amores - como o do seu neto.
Não desista, Isabel, tem outras mãos que a podem ajudar, acredite!
Eu estou à beira de desistir, vacilo entre o abismo e o descampado que o antecede - tenho uma filha (viva) que descobri que se andava a matar...
Preciso que me diga que vale a pena lutar - por eles - por nós...
O David tem a força que falta à minha filha! - Que bom, Isabel!
Seja menos infeliz, por favor

Hoje choro consigo

Isabel disse...

Minha querida Albertina

É espantoso como as suas palavras me emocionaram.
A força do David é a que me faz andar.
Como gostaria que elas se transferissem para a sua filha.
Porque sei o peso que lhe vai no coração.
Conte com a minha ajuda...no que eu puder.
Um beijo
Isabel Venâncio

Linda disse...

Querida Isabel!!!

Vale a pena! Claro que vale a pena...por si, pelo David, por o seu netinho e por todos os que a rodeiam e a querem ver bem.
Emocionei-me agora com a Albertina, pois sei o que ela está a passar neste momento.
Eu venho cá todos todos dias, nem sempre comento, faltam-me as palavras, nunca foi muito boa a escrever, também não há muito parar lhe dizer pois a Isabel já diz tudo.
A mão não está fechada,está invisível, mas está presente e está bem aberta para si.
Beijinhos
Linda

Anónimo disse...

Isabel,estou integrado num Centro Espírita e sei que a morte do Ser não existe.Que todos somos Espíritos,encarnados ou desencarnados,e que os desencarnados respondem do Além,enquanto aguardam o momento existencial certo de reencarnarem.Não me anima nenhum propósito de proselitismo mas o desejo sincero,genuíno,de ajudá-la a ultrapassar a dolorosa provação da sua vida.Sei que o David está vivo porque é uma alma imortal.Mas também sei que as minhas comprovadas convicções fazem parte do meu trajecto de Vida.Se a Isabel me permite este conselho amigo,poderia ser muito reconfortante para si saber que a Morte não tocou na Essência do David e que ele permaneceu em Espírito com toda a sua individualidade e consciência após o momento da morte física.António Damásio não tem razão na sua visão monista de Mente e Cérebro.Einstein sim,quando assevera:“A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original. [Elucubrando e especulando: obviamente o cérebro não é a mente; apenas é o órgão físico do qual a mente depende e não depende para se manifestar e interagir, pois muitas manifestações podem acontecer sem a intermediação do cérebro".
Investigue Isabel,não se deixe moldar definitivamente pela sua descrença no Além e na Vida Para Além da Morte.Vá com todo o seu cepticismo.Procure gente idónea nestas esferas do Conhecimento,de que lhe falo.E reencontre,pelo menos,o seu filho em Espírito,se é que não o vai reencontrar um dia reencarnado...António

Brancamar disse...

A Isabel sabe que vale a pena! Sabe! Sabe que este é um tempo mais amargo, mas que muita vida e muita luz existe à sua frente, pelos anos fora...
Vi a minha avó "viver" como a Isabel, por um filho que partiu aos 21 anos, vi-a sossobrar em algumas datas significativas, mas vi-a também transformar esse amor numa enorme fonte de entrega e de vida, pelos outros filhos e netos.
A Isabel é uma mulher tão completa e sensível e generosa pelo que já me foi dado ver, que tenho a certeza que será esse o seu caminho, tenho a certeza que já é, não só pelo seu filho e neto, mas por muitos outros... Sei que o que nos chega são apenas os ecos do seu silêncio nocturno, da saudade pungente destes dias, mas não se debruce demasiado sobre datas, eu sei que é inevitável, mas no fundo somos nós que criamos esses marcos.
Beijinho grande para si, hoje e sempre.
BRanca

LuisaB disse...

Isabel...parei neste blog que visitei por algum comentário seu em algum blog de amigas comuns...
Nem sei porque até me perdi com o aqui li de tanta tristeza que senti...
Tenho um filho autista/asperger que ficou com lesões no fígado e ainda não descobriram definitivamente as consequências. pelo que li, entende que compreendo o que é esse sentir e tentativa de esconder a dor ou lágrimas porque eu tanto disso já fiz estes anos todos em que tenho de lhe sorrir para que ele não perceba que no meu coração está tanta dor e magoa e por vezes raiva, sim raiva porque eu afinal também sou filha de Deus e a raiva toma conta de mim porque fiquei aqui praticamente sozinha a lutar contra tudo e todos e a minha força vai-se extinguindo.
Já ouvi tanta coisa do meu filho de querer morrer para não sofrer mais porque ele ao ver as pessoas que lhe fizeram mal nem queria mais viver. Enfim...eu só sei isto: Quando preciso pego no carro levo um pacote de lenços e escondo-me a chorar até que o coração fique mais seco e consiga suportar mais ilusão de vida triste.
Posso parecer ingrata porque o meu filho ainda está comigo e me considero lutadora mas a força essa nem sempre está cá porque ao longo de 5 anos que luto sozinha nesta síndrome de asperger e desde Abril com esta nova doença que lhe atacou o fígado lhe provocou icterícia e ninguém descobre o porquê nem como nem onde está a doença que lhe destrói os glóbulos vermelhos o deixa sem forças numa cama prostrado...
Não sei bem que lhe diga se lhe dê força para que chore e seque mais as lágrimas que jorram dentro no coração e alivie essa carga de dor , se pelo contrário lhe faça a vontade e incite a viver a vida procurando a felicidade que será incompleta sem o David ainda que o tenha vivo sempre em si em cada ato e pensamento.
Perdi recentemente o meu pai a minha avó e um noivo que era mais que pai dos meus filhos...mas estou consciente que se perder o meu filho "a diferença que existe entre umas perdas e outras".
Peço desculpa Isabel se a estou a magoar com algo ou menos sensível a algo porque lhe digo que fiquei tão triste que nem sei bem o que estou a escrever, apenas aquilo que sinto como sendo ou fosse eu...
Considero ser a heroína na vida do meu filho mas não sei se o seria na sua "viagem" para...sempre. Acredito em vidas passadas e reencarnação mas isso não me tiraria a angustia e dor da perda que seria...não o poder ver mais na forma que ele é hoje fisicamente porque espiritual isso é lindo mas não podemos ouvi-los e isso dói demais só de pensar...
Desculpe Isabel, penso que talvez não tenha vindo ajudar em nada mas acredite que sinto muito o quanto sofre e desculpe uma vez mais por estar aqui a chorar mas a vida não é justa!!!
Beijinhos