08 setembro 2008



Há um amigo, porque é amigo, que tenta ajudar-me.
Acredita noutras vidas, num outro existir,...
E eu sinto-me bem com essa mão estendida.
Mas eu (como o David) acredito no que me rodeia, no que vejo, no que sinto, na mão que aperto, na bondade dos homens.

O David existe? Claro que existe. Existe em mim e em todos, muitos, que dele gostaram e gostam ainda.
Eu sou quem sou porque o David passa por mim, a todo o momento. Atravessou este breve caminho mas deixou uma marca indelével.
Eu sinto, vejo, aprecio as coisas, também pelos olhos do David.
Penso constantemente - "O David gostaria desta música; o David preferiria que fosse assim; o David não concordaria..."
Eu sou eu e sou ele, ao mesmo tempo. Na parte da mãe que é dele.
Há a outra mãe e a recente avó. E seria assim que ele gostaria que eu fosse.
Mas partiu.
E isso dói porque não é aceitável para uma mãe.
Nunca compreenderei que parte da minha vida se perdeu, ali, naquele momento em que a minha mão teve que abandonar a dele; em que me disseram "Agora, tem que sair!"
E o meu menino ali ficou; mas não sozinho!
Nunca o deixaria só.
A minha mão obedeceu e afastou-se.
A força que comandava a mão ficou com ele; continua lá onde quer que ande.

Seria mais feliz se acreditasse em vidas paralelas.
Mesmo assim, seriam desencontradas... E a saudade continuaria.
Acredito que somos matéria, poeira de estrelas que, por um acaso, foram um David e uma Isabel.
E foram felizes!
Agora, tenho a saudade.
Tenho os sons dele, dentro de mim.
Sou sensível à luz porque aprendi com ele.
Aprecio certos sabores porque os descobri com ele.
O David existe, intensamente, dentro de mim, na minha memória.
Onde nada quero que se apague.
É doloroso? É!
De uma forma imensa, indescritível e, às vezes, quase desesperadamente insuportável e louca.
Mas aceito as lágrimas, aceito o peso no peito, aceito o "quase vómito" do pavor que me sobe garganta acima...
Essa dolorosa saudade vem do David.
É o próprio David.
É assim que o David existe e continuará a existir enquanto eu existir.
Está cá dentro.
Quem olhar para mim, bem de perto, bem dentro e lá no fundo dos meus olhos, pode vê-lo.


Não um adeus distante
Ou um adeus de quem não torna cá,
Nem espera tornar.
Um adeus de até já,
Como a alguém que se espera a cada instante.

Álvaro Feijó

3 comentários:

Branca Pinto disse...

Querida Isabel,

Como sempre o seu texto é de uma grande beleza literária, sentimental e até metafísica.
Eu também acredito mais em coisas concretas e não acho que sejemos mais infelizes por essa razão, é uma outra forma de sentir. Ou a mesma forma, com luzes diferentes. Temos sempre aqueles que amamos bem perto de nós, bem no nosso íntimo e isso faz-nos tão bem pela vida fora, apesar dos momentos de saudade...!
Beijinho

Anónimo disse...

Eu também acredito na Bondade,Isabel, e é completamente irrelevante se uma pessoa generosa possui ou não convicções religiosas.Acredito que cada um de nós está nesta sucessão de vidas para,progressivamente,se elevar e que não parará de renascer até o conseguir.Sei,convictamente sei,que somos Todos seres espirituais com corpos físicos,quando passamos pela experiência material.Entendo e toca-me profundamente o seu pungente drama.E desejo muito que encontre a sua Paz.Que o Deus em que acredito aconchegue o seu David e lhe faça chegar os sinais da Sua Presença.António

paula simoes disse...

olá Isabel

como sempre um texto maravilhoso
sempre a saudade e o amor
deixo-lhe um beijinho com carinho

se quiser passe no meu cantinho há novidades

beijinhos do tamanho do Mundo