18 setembro 2008

11 meses, não mais...



Ainda é dia 18.
Não vim aqui todo o dia, embora o meu dia, de longe, tivesse decorrido aqui, abrindo portas, fechando janelas, correndo cortinas, desvendando cantinhos secretos.
Passeei-me, sonâmbula, pela escola.
Talvez, tenha, propositadamente, marcado várias tarefas, para hoje. Para não pensar, para não falar... ou falar demais.
Nada de muito cansativo.
No entanto, estou, aqui, relativamente exausta... relativamente adormecida para o que me rodeia...ausente...mas, completamente, desperta para cada segundo que vivi (como, já não sei!) no quase Outono que passou.
Não me tinha acontecido sentir-me como que violada como mãe; nem sei bem o que quererei dizer com isto...
Mas é esta a única forma, não pensada nem reflectida, de dizer como me sinto (talvez!)
Há uma dor lancinante que não dói e que não é a de Camões, porque a causa da dor "dele" existe.
Há um fogo que queima mas não arde porque é cinza.
Ainda é dia 18.
Há um ano, ... uma amiga diz-me que enviei um mail onde dizia “…acho que chegámos ao fim da linha". Para logo acrescentar “ A não ser que em Paris…”
Nada veio de Paris, além duma mentira piedosa que nos permitiu olharmos uns para os outros como se tivéssemos a eternidade pela frente.
Foi bom...
A luz de Paris e as luzes do David apagaram-se atrás da cortina que desceu sobre o palco.
O palco está vazio; fiquei eu, sentada, quieta, num cantinho.
Persigo uma certa luz; não quero perder-lhe o rasto.


Á(r)VO(re)

Escreve-lhe secando a seiva das raízes

Com lágrimas de sal

E sem juízes

Mantendo-se de pé

No imenso vale

É o que é

Árvore frondosa

Falda

Com sopé

-.-

Dedicado à avó Arminda

-.-

Jaime Latino Ferreira

Estoril, 18 de Setembro de 2008

3 comentários:

Brancamar disse...

Olá Isabel,

Hoje é um outro dia.
Tudo o que poderia ter dito no dia 18 já o disse atràs, desencontrada nos posts.
Hoje é um outro dia, espero que com menos sombras para si...
Este poema de Jaime Latino Ferreira é lindíssimo e espero que sua mãe seja ainda, porque será sempre, essa "Árvore frondosa, essa falda com sopé..." onde a Isabel se possa acolher um pouco na sombra de uma ternura que só a sabedoria da idade nos transmite.
Um abraço carinhoso.
Branca

Albertina disse...

Saí agora do concerto da Maria João, Mário Laginha e Bog Band do Hot Clube.
Como lhe prometi, dediquei-o, mentalmente, ao David.
Ele gostou!

Passe um bom fim de semana, Isabel.

Um abraço.
Albertina

Anónimo disse...

"A morte de um filho é absolutamente inverosímel",como já a Isabel referiu.Acrescento que não há pior morte do que a do esquecimento.A invocação da memória e da Bondade do seu filho eterniza-o para sempre.António