04 agosto 2008

Estou menos...

Esta casa nunca tem a porta cerrada e as janelas estão abertas para o sol, que a inunda de luz, e para os verdes do monte.
Esta casa não está fechada; mesmo não estando eu à porta, há sempre uma fresta entreaberta que aguarda, diariamente, o momento em que vens.
Aguardo, pacientemente, o momento de me despojar de "máscaras" e encostar os ombros à secretária e olhar para dentro de mim.
E vou vendo, como se de fora estivesse e me olhasse e a tudo o que me cerca.
As coisas, os espaços, as casas, o céu, o monte ou o mar continuam por aqui. Mas tudo é sempre, só e apenas, o que pensamos e sentimos que é.
O meu jardim ... olho-o daqui, mas não é o meu antigo jardim, embora seja o mesmo...
Nem as paredes completamente brancas da casa têm a mesma brancura repousante, de antes.
Tudo perdeu um pouco o significado que tinha. Apenas porque eu lho atribuía.
As minhas árvores são as mesmas árvores; mas não são as minhas árvores.
Sentia-as, confiando que as minhas árvores dariam fruto para além de mim; certa de que eu permaneceria também em ti.
E é talvez certo que, ainda assim, vou permanecer...
Mas já não da mesma forma.
Eu sou apenas aquilo que os outros pensam que sou e o que vêem em mim.
E cada um vê apenas o que vê e eu revejo-me no que cada um vê em mim.
Somos feitos de pequenas parcelas de representação de nós próprios nos outros.
Foi-me amputada a parte de mim que vias em mim.
Por isso, também Moledo e a brancura das minhas paredes perderam uma parte do seu fulgor.
Porque já não existe a parte de mim que tudo sentia dessa forma tão completamente fulgurante.
A parte de mim que tu vias em mim não regressa, levaste-a contigo.
Juntamente com a luminosidade de Moledo que aprendi a ver contigo.
Não estou melhor nem pior...estou menos...

Amanhã, tu, eu e o Manel partíamos para Barcelona. Com esperança redobrada...

2 comentários:

jaime latino ferreira disse...

O TERCEIRO EU

" E vou vendo, como se de fora estivesse e me olhasse e a tudo o que me cerca. "

Ele há o eu que sinto, o que se projecta no Outro e esse que se distancia e vê de fora como se despegado que não está, de mim mesmo.

Aquele que sinto e o que se projecta no Outro são as duas faces de uma mesma moeda e a moeda essa tentativa despegada, que tenta distanciar-se, panorâmica, como se vendo de fora ...

Um blogue e até ver ... é isso mesmo!

Coisas, espaços, casas, o céu, o monte ou o mar se continuam por aí, é porque são também muito mais do que apenas aquilo que pensamos e sentimos que são!

O Seu antigo jardim, como escreve, embora já não seja o de antigamente também já não é o mesmo!

Tudo e as paredes brancas de Sua casa, as Suas árvores também, ganharam outro significado e deram fruto incluindo-o a ele, Seu filho, porque a todos a Minha Amiga também tem o previlégio de registar pela escrita que permanecerá, desmultiplicando-se sempre, multiforme.

Não se esqueça que é pela escrita que nos conhecemos ...!

E que, por mais que escreva, nunca se resumirá apenas ao que os outros pensam que é ou que em Si vêem bem como aquilo que cada um de Si vê não se resumirá ao que revendo-se, os outros vêem em Si.

Nunca permanecemos da mesma forma, não!

Importa religar em nós mesmos todas as pequenas parcelas que nos constituem incluídas todas as amputações sem as quais, não retomaremos com fulgor tudo o que se sente!

A Minha Amiga, aliás, sente com todo o fulgor, desculpe-me, toda a Sua dor!!

Não sei que Lhe escreva mais ...

Sabe porquê?

Porque por mais que Lhe escreva, Minha Querida Amiga, apenas a Sua individualidade poderá, com o tempo, retomar!

Porque todos somos diferentes e se nos revemos pela escrita, essa codificação comum que utilizamos, é cada qual por si, na interacção com os outros, concerteza mas por si, que poderá, inclusivé pela escrita sarar e prosseguir em frente e isto porque só a Minha Amiga dispõe dos dados que a refaçam como um todo.

Amputado, ferido, profundamente magoado mas, no entanto, como um todo ...

Vou parar de Lhe escrever mas acredite que no meu silêncio está não só todo o respeito como a solidariedade e a porta aberta para o que a Minha Amiga entender que seja necessário.

Saiba que poderá sempre contar com minha mulher e comigo também!

Estamos por cá, Sua irmã saberá, concerteza, pôr-nos e caso disso fôr, em contacto.

Seu e sempre porque logo para sempre este nosso diálogo nos uniu,

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Agosto de 2008

Ana Cristina disse...

Jaime e Manuela

As Vossas palavras nesta Casa foram e são preciosas porque foram sempre ditas com muita Amizade e Carinho.

E depois,um blog,mesmo que seja triste e sofrido como este,precisa de palavras para além das que aqui são colocadas pela sua autora.

Quem "está de fora" diz de outra forma, reflecte outros sentires para além de que no Vosso caso, primam pela excelência da escrita, que como já Vos disse muitas vezes, não devem deixar nunca de nos brindar com Ela.

Muitos beijinhos aqui de Gaia, bem mais perto de Moledo, onde preparo a minha nova vida e onde espero com ansiedade uma outra vida tão desejada e importante para a minha família e para o meu querido David.

Tenho a certeza de que entre Vós e a minha irmã se criaram,pela escrita (que ela tanto valoriza e domina) elos muito fortes que assentam em tudo o que passámos juntos e na Amizade que nos une.

1 abraço saudoso e lembrem-se que esta casa está sempre aberta.

Nini