22 agosto 2008

Duas casas


Renato Roque

Se a casa de férias está cheia (quase!)...
Se, finalmente, uma parte dos sonhos que se sonham para a vida se realiza, com a presença de uns olhinhos escuros...
Há uma outra parte, definitivamente, irrealizável...
Por isso, construí esta Casa para ti, onde venho, mesmo não vindo ...
Porque ela sou eu...
Porque a trago comigo, sem que a vejam...
Porque o peso das lágrimas, que não deito, se acumula... se não venho
E porque há, sempre, uma hora do dia em que as outras portas se fecham e estas se abrem para que, por elas, entre o pôr-do-sol ou a chuva ou o cheiro das algas ou o apito do comboio que passa, lá longe, ou um dos teus sons... ou o silêncio, apenas.

É para ti e para mim que falo - a vida, lá fora, tem de continuar.
Mas há outros - poetas - que nos ouvem sussurrar e nos dizem coisas bonitas.
Hoje, partilho-as.


"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade."

in comentário de Sua irmã, de Carlos Drummond de Andrade


Querida Amiga,

Como Lhe escreveu minha mulher, a Isabel tem mais força do que nós todos juntos!

Como cita de Drummond de Andrade Sua irmã, nada arriscando e esquivando-nos ao amor e ao sofrimento, perdemos também a felicidade.

A felicidade, aliás, se é um estado de pureza virginal e imaculada, uma pulsão (!), não o é por ser alheada do risco e do sofrimento, da capacidade de amar ou de exposição, do testemunho das nossas próprias fragilidades ...

Será antes o que de puro, virginal e imaculado somos capazes de conservar e logo porque se ama e pesem embora ou por maioria de razão o risco e o sofrimento a que nos expomos!

Diz-se da prostituta que pesem embora todas as devassas a que é exposta e sujeita, conserva sempre em si um lugar intocável que não há humilhação capaz de lhe chegar ...

Quando Lhe enviei o último dos textos da trilogia, o Silêncio, pensei que com ele me iria progressivamente retirar da Sua dor que tanto tenho acompanhado, até por perceber no que já disse e escreveu, que tem a Sua dor, ela é Sua e tem, seguramente, o seu próprio processo de remissão, o seu tempo e o seu espaço também, que apenas a minha Amiga saberá como sarar, ou como com ela e para sempre, conviver!

Mas achei e pese embora me ir, progressivamente, silenciando, não que da Sua dor me afaste mas que me vá silenciando,é lá possível afastar-me de todo este Seu processo com o qual, convivendo, também aprendi Consigo (!), mas silenciando sim.

É que o silencio, se toda a musicalidade e a poética contém, simultaneamente dá espaço a elas e deixa, com outra oxigenação, respirar!

A minha Amiga sabe que nos tem por aqui, a minha mulher e a mim próprio e sempre disponíveis e mesmo se pelo silêncio Lhe responder, já que ele ... está cheio de tudo.

Um beijinho, Seu

Jaime Latino Ferreira

1 comentário:

paula simoes disse...

olá Isabel

passo para lhe desejar um bom fim de semana

beijinhos do tamanho do Mundo