29 julho 2008

Fomos partindo...



29Julho2007
A caminho de Faro com a Olga, para um último concerto de João, antes de Barcelona. Só mesmo alguém com uma indomável força de não se deixar vencer.
Passagem por Cascais e um banho na piscina, finalmente livre do cateter.
Até isso era motivo para aproveitar o lado bom da doença.
Ou da vida?

Eu fazia malas, revia voos, tratava dos apartamentos, encomendava mais frascos das "poções mágicas" ao Sr. António, acertava horário na escola, procurava que me desfizessem os medos, falando, falando, falando sempre.

Estávamos cansados.
Eu e o Manel fomos a Moledo, despedir-nos de todos. Ia começar a época balnear, com todos os amigos e rituais associados, há mais de 20 anos.
Jantar triste com o Sérgio e a Carla, no Ancoradouro.
Desta vez, não ficaríamos ali.
Não haveria passeios de bicicleta, nem sardinhas, nem banhos nas ondas, nem idas ao marisco, nem conversas de barraca, nem jantares de amigos de liceu, nem mergulhos na piscina, nem procissão da Senhora de Ao Pé da Cruz, nem os sermões do padre ouvidos por toda a aldeia, nem farturas, nem fogo preso em Caminha,...
Levávamos saudades da nortada e dos montes verdes, connosco.

Os mal entendidos e corte de relações com pai e prima tinham entristecido o David; apesar de ter sido ele a tomar a decisão de se afastar.
Mas o sorriso dos olhos não voltara a ser o mesmo... Nunca mais foi o mesmo...
Pesava-lhe tanta injustiça e falta de solidariedade.

Queríamos partir deste ambiente, agora mais pesado e que, subitamente, nos sufocava.
Íamos...em busca de mais tempo.

6 comentários:

Ana Cristina disse...

Depois do jantar comeu bolo de chocolate da D. Conceição e bebeu um frasquinho do Sr. António.

Contou todos os pormenores sobre o concerto da Maria João em Faro e dizia-me que estava tudo "sob controle".

Subimos ao sótão e enquanto a Olga consultava o correio electrónico deitou-se na cama brasileira que pendia do tecto e onde tanto gostava de se baloiçar.

A Diana sentou-se no chão ao lado dele e invejava-lhe as enormes pestanas nos olhos côr de avelã.

O cansaço começava lentamente a chegar e no dia seguinte havia a segunda parte da viagem para fazer até ao Algarve.

"Nini,agora tenho de me ir deitar.
Amanhã acorda-me ás 8,30h - ainda tomamos o pequeno almoço juntos.
A água da piscina estava morna e deixou-me moído; vou descendo."

A nitidez das imagens...a recordação e a saudade.

1 beijo.
Nini

jaime latino ferreira disse...

Isabel,

Tenho-Lhe escrito assim, assiduamente, mas eu não sei o que faria se me morresse o meu próprio filho ...!?

Não sei como e se seria capaz de gerir tamanha dor, dor que é rasgão, lapso espaço/temporal que se cria, a insuportável ausência insubstituível, irremediável também mas não menos, o filho que se vai, fisicamente para sempre a tentativa de encontrar porquês e o sentimento de culpa que sobre nós se abate e nos abala ainda mais e tudo o mais, e tudo o mais ...!

Persisto, no entanto, em escrever-Lhe julgando, de algum modo, poder concorrer para dar-Lhe o alento adicional, apenas adicional.

Como se Lhe dissesse assim:

A vida e pese embora todo o seu dramatismo, continua a valer a pena ser vivida, é bela, galvanizante, única e irrepetível!

Não deixe que ela passe por Si sem a continuar a viver e a viver para lá de Seu filho!

Eu sei que Lhe poderá parecer fácil ler o que aqui escrevo mas, exactamente por ter sido poupado a tal dor e como peço a Deus que a tal me poupe (!), cumpre-me com as lentes e filtros que permanecem ao meu dispôr, exaltá-La tal como a Minha Amiga, reconhecendo o irrepetível e único do David e da sua vida, o exalta a ele num vórtice temporal que o não quer, não pode largar e deixar ir ...!

Mas a Vida vai e nós ficamos para que a possamos continuar a viver!

E sem cantar de alto nem comiserações, Minha Querida Isabel, a vida é bela e só vale a pena ser vivida com toda a intensidade.

Se já provou o travo do doloroso e infernal, não deixe de tentar e de provar o doce sabor do paraíso!

Eu não me quero repetir nem adianta fazê-lo mas diz-me a minha modesta experiência que, quando todas as portas se parecem fechar, uma fresta surge a redimensionar-nos tudo outra vez e com beleza acrescida.

E quando isso Lhe acontecer, não ofereça resistências em nome de que luto fôr, passe a fresta e verá que sempre há mais e mais.

Um beijinho, Seu

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 29 de Julho de 2008

Anónimo disse...

A "Casa da Venância" tornou-se roteiro habitual da minha peregrinação...No início,foi a Dor pungente da Isabel que me tocou,depois o Mistério que me parece envolver o esvoaçar do David para Terras do Além...Ao visionar o olhar contemplativo do seu amado filho,reafirmo a minha convicção:O David está espiritualmente vivo e voltará a renascer para desatar nós existenciais subsistentes...António

Anónimo disse...

Isabel

Como é possível que, ainda, tenhas lágrimas para chorar?
Vejo-te de olhos molhados, uns dias mais outros dias menos, já lá vão mais de 2 anos...
Muita gente está à espera de um sinal teu, para se aproximar e retomar amizades interrompidas.
Não nos queremos impor; pensamos que, talvez, seja essa a tua forma de fazer o luto.
Afinal, que sabemos nós da dor, dessa tua corajosa dor, a que assistimos, desde o início?
Na escola, todos admiramos a tua coragem. Nem sabemos como te aguentaste, profissional como sempre.
Não estará na altura de regressar; um bocadinho, hoje, e mais um bocadinho, amanhã?
Os teus amigos precisam de ti, da tua alegria e da tua utopia (lembras-te?)...
Basta que os chames, com lágrimas ou sem lágrimas.

M.

jaime latino ferreira disse...

Nini,

Nunca me tinha apercebido que a minha amiga é pequenina, será ou é da perspectiva!?

A Nini é pequenina
Ou será da perspectiva
Será que a Nini não atina
Com a angular objectiva

A minha amiga Cristina
Tem o tamanho de diva
Ela é bonita e divina
Não tem ar de estar cativa

A Ana é uma menina
Num sorriso cheio está viva
É irmã e tem a sina
De ser excelente conviva

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 30 de Julho de 2008

Anónimo disse...

Vamos partindo...

Os olhos do David são tristes, com saudades de futuro...

Mas os braços da tia querida rodearam-no, o bolo de chocolate da D. Conceição estaria doce, as perguntas da Diana decerto o divertiram e talvez a sua mão bonita tenha afagado o pêlo macio do Alex.

É bom ter braços que nos segurem nestas travessias, nestas chegadas e nestas partidas.

Para a Isabel
para a Ana Cristina
e para a Diana

Manuela Baptista
Estoril,30 de Julho 2008