14 julho 2008

Entre mim e mim




Estou presa a esta cadeira.
A ansiedade atordoa-me... o dia está quente, o pasto à frente está verde, as cortinas agitam-se com uma pequena brisa que passa. Ouço os fados do Camané... mas tudo me parece pouco nítido.
Tal como há um ano, tudo se repete.
Mas só estou eu aqui, colada aos dias que vão regressar de longe. Não vão trazer nada de novo. A não ser o que já foi e a minha perplexidade, que antevejo porque já a sinto. Mais uma vez, colada a mim, sob a outra pele que me cobre.
Cobrem-me tantas peles que se foram sobrepondo.

O teu lugar está vazio.
Estou presa dentro de mim.
Tenho o coração junto à garganta, e novamente...o medo que me toma por inteiro e me impede de reagir.
Sei tudo, sei como vai ser, ... nova partida, nova viagem; reconheço-me nesta e na outra que virá.
Não identifico a pele que me cobre.
Não sei qual sou, hoje. Sei que o medo regressou.
Sei que, hoje, não preciso de ser corajosa.
Basta-me ficar quietinha e estar aqui, como estou.




Prepara-se para sair;
e ao ver-se ao espelho
fica presa à sua imagem,
como se não quisesse

soltar-se dela.
Ficará,
assim, nessa indecisão
entre ser ela
própria
ou abdicar de o ser, para que

a mulher do vidro não desapareça.

Mas se alguém a chama, da porta já aberta

para a rua, hesitará: ceder

à pressão da vida, ao apelo de fora,

ou continuar no interior do espelho,

onde ninguém saberá como encontrá-la?

E continua a apertar o botão

ao pescoço, protegendo-se

das portas que se abrem à sua frente.


Nuno Júdice

9 comentários:

jaime latino ferreira disse...

O REFLEXO

O reflexo é o eu sem mim

É a imagem quase pura
despida de som

Ele é a imagem quase tão pura que se converte num contorcionismo inverso das minhas lateralidades

O que no reflexo lá está não sou eu mas aquilo que me habituei a ver de mim próprio

Não me reconheço no positivo fotográfico mas antes no seu negativo que é o reflexo aproximado na inversão cromática

O reflexo é a opacidade ou o não vazio de mim mesmo

É o que está entre a anti-matéria do eu e o que sou

O reflexo prende-me a ele e convida-me a ir para lá dele

É a atracção da negação

O reflexo é a negação da negação que dele me distancia e faz inteiro

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 14 de Julho de 2008

Anónimo disse...

Isabel
Venho aqui muitas vezes. Admiro a sua coragem em se revelar.
Acredite; não é fácil o que faz.
Tem-me ajudado muito. Também eu passei por uma situação dolorosa. Nem de longe como a sua, mas ajuda-me a descobrir o caminho de apaziguar a minha dor. Falando. Não importa quem nos ouve...
Deve ter sido e ser uma mãe e mulher de grande coragem.
O seu blog é um hino ao Amor.
Ana Sousa

Anónimo disse...

Isabel

Conheço bem o seu blog. É bonito e revela uma grande sensibilidade que só pode alimentar-se do verdadeiro amor das mães.
Sei também que o David adormeceu e que a Isabel lutou para que não fosse perturbado por familiares que, com peso na consciência, o quiseram ver, só e já no fim.
Eu faria o mesmo.
Tal como qualquer mãe.
Continue a escrever. Ganhou esse direito. Ajuda-se e ajuda outros.
O David merece.
Maria

Anónimo disse...

Hoje, sinto-a verdadeiramente triste; mais triste.
Ainda não teve tempo.
Mesmo assim, apesar de triste, os seus textos e todo o blog são bonitos e merecem ser lidos porque a ternura e a saudade, aqui, são transparentes.
Como o mar da Grécia, do seu filho e de Sophia - a poetisa.
Aceite um abraço. É anónimo. Mas que interessa?

Brancamar disse...

Minha querida amiga,

Venho desejar-lhe uma noite serena, depois de vir do texto anterior, noto-a neste mais ansiosa, é natural, os dias ainda não são fáceis, mas tenho a certeza que um dia destes as recordações serão lágrimas doces, sorrisos de esperança e de renovação nos olhos de uma criança...
Não perdi um filho, mas ainda hoje tenho dias em que choro a minha avó que partiu há 24 anos, depois de ter nascido a minha filha, compensações do Universo, a Isabel terá as suas. As recordações serão doces e as lágrimas ternura, saudade, mas sempre e principalmente suave ternura...
Desculpe, porque não sei sequer imaginar, mas acredito que o tempo transformará essa ferida aberta numa doce e suave lembrança...que estará sempre consigo, porque o David nunca deixará de estar consigo, para a apaziguar...

Beijinhos
Branca

OBSERVADOR disse...

Isabel

Escrever é a sua forma de comunicar. De recordar o David. De desabafar.
De dar a conhecer a sua dor.

Tenha um bom dia.

Linda disse...

Isabel
Passo aqui em silêncio todos os dias...
Hoje quebro o silêncio, como é profundo o Amor de Mãe, como o David tem (porque ele está vivo no Céu) um amor tão grande...
Como aqui já foi dito este blog é um hino ao Amor

Linda

CrisArriaga disse...

Escrevo, apenas, para lhe deixar todo o meu carinho.
Beijinho
CrisArriaga

Ana Cristina disse...

Amanhã é um dia de Mudança para mim e na 5ª. feira p'la manhã parto com a Diana para a Ilha sobre a qual o David escreveu um artigo premiado e publicado n'O Público (quem sabe não te apeteça colocá-lo aqui ...).

Não virei abrir esta porta durante umas noites mas levo-Vos no coração a Todos ... tu sabes...
não são precisas mais palavras!
Deixo um beijo para o dia 18, para ti e também para a mamã!

Fico feliz por ver a "tua casa" com tantas visitas e com um traço comum nas palavras aqui escritas:
a "Tua Casa" é apaixonante porque o que revelas de ti e do David não deixa ninguém indiferente.

Podem ter a certeza, todos os que aqui entram, o David era uma pessoa Maravilhosa e ESPECIAL.

A Mãe do David- a Isabel - é quem Vos abre as portas desta casa e sobre Ela nada poderei dizer que Vocês não tenham já percebido.

Beijinhos da Nini.