27 julho 2008

Aniversários...



Hoje, fiz 53 anos.
Não era assim que tinha imaginado a minha vida, nesta idade. Aqui, hoje e sempre, enquanto eu existisse, estariam os meus filhos, netos...
Mas acontece a vida não acontecer como a projectamos. Os sonhos não são mais do que isso - sonhos.
Castelos de areia que se desfazem com a maré cheia.
Ou as flores das minhas laranjeiras que não chegam a transformar-se em fruto, com o soprar do vento mais forte.
Também os meus dias foram invadidos pela força das Parcas que nos olham lá de cima...
Não era isto que eu via, quando, jovem estudante universitária me imaginava com os filhos à volta e a casa cheia de gente e muitos pratos à mesa.
Não se pode sonhar; o melhor será mesmo esperar que a vida nos diga, em cada manhã, como vai ser cada dia.
Assim, não me afasto do passado nem me projecto no futuro.

Acontece que há um ano, precisamente, assisti a um concerto da Maria João, no Palácio de Cristal.
Fomos todos, exactamente, todos, jantar e depois encaminhámo-nos para o Palácio.
Vi, pela última vez, o David fazer as luzes do espectáculo João.
Via-o alegre, auto-confiante, satisfeito por estar no seu habitat natural, embora estivéssemos prestes a encerrar um ciclo e a partir para Barcelona, com muita ilusão e alguma incerteza.
Nada disso o demovia do profissionalismo que o caracterizava. Chegado às salas de espectáculos, transfigurava-se. Era feliz...
Ainda hoje, o vejo, alto, de costas bem direitas, mangas arregaçadas, sorridente, a dar orientações sobre a colocação das luzes.
Como poderia imaginar que o dia dos meus 52 anos seria a última oportunidade de ver o meu filho, no palco da luz?
"Malhas que o império tece."

Fazer anos no fim de Julho sempre teve o inconveniente de toda a gente estar de férias. Por isso, me habituei a não valorizar o meu aniversário. Poucos o fixam.
Mas este ano, recebi muitos "parabéns".
E agradeço-os, sentidamente, mesmo.
Sei que foi o David ou a saudade dele que estiveram por detrás de tanta ternura que me manifestaram.
Sei que pensaram nele ao pensarem em mim.
Isso me basta.



“Assim se cumpre o signo dos meus dias - ir até ao fim da estrada com as palavras coladas aos dedos.”


Álvaro de Oliveira, "Baladas de Orvalho"

8 comentários:

Anónimo disse...

“Em breve terás mais um rapazinho na tua vida que de certo aprenderá contigo e com todos nós a amar o David e, quem sabe, a correr pela praia de Moledo com a toalha presa no pescoço a fazer de Super-Homem.” (Ana Cristina) "Mais um" ou o mesmo ?...António

Brancamar disse...

Temos a mesma idade Isabel, só que eu já fiz em Dezembro.
Mais um lindo texto que nos deixa! Qual dos dois é David nesta fotografia? Os seus filhos são gémeos ou eu já estou a baralhar tudo?
Já lhe dei os parabéns, agora deixo-lhe beijinho.
Até breve.
Branca

OBSERVADOR disse...

Isabel

Com algum atraso lhe dou os parabéns que faço questão que aceite.

Largos minutos se passaram até que eu chegasse à conclusão que não sou capaz de escrever mais nada.

Permita-me um beijinho.

jaime latino ferreira disse...

PODE
DEVE-SE SONHAR

Sabia, Isabel, que quando se projecta aqui, porque a escrita é uma forma de se projectar, a Minha Amiga sonha?

Sabia que ao recordar, os castelos de cartas se erguem e apesar da maré cheia?

Sabia que as flores da laranjeira se continuam a transformar em frutos, suculentos sóis que apanhados com o vento escorrem como sumo luminoso e nos saciam?

Sabia que as Parcas se figuram a morte, presidem, trinitárias à duração da vida?

Sabia que os sonhos de estudante se convertem em força de viver e que se vale viver o dia a dia também vale olhar para os àmanhãs que cantam?

Sabia que se não se projectar no futuro como o faz quando escreve é arrastada, engolida pelo passado?

Sabia que as malhas que o império tece são sempre projectadas num palco de sombras e de luz e que se de luz apenas o fôra, nos encandeariam para lá de qualquer cegueira?

( ... )

Fazer anos é bom porque assim 'se cumpre o signo dos meus dias', assim se vai 'até ao fim da estrada com as palavras coladas aos dedos.'

Assim se canta uma balada onde o orvalho, como lágrima ressequida, reflecte o Sol salino e nos dá vida.

Não tem de quê!

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 28 de Julho de 2008

Graça Lopes disse...

Com um dia de atraso...

Não desanime de si, ainda que a colheita de hoje não seja muito feliz.

Não coloque um ponto final nas suas esperanças.
Ainda há muito o que fazer, ainda há muito o que plantar, e o que amar nessa vida.

Ao invés de ficar parada, olhe para frente, e veja o que ainda pode ser feito...

A vida ainda não terminou. E já dizia o poeta "que os sonhos não envelhecem..."

Vá em frente.
Sorriso no rosto e firmeza nas decisões
Parabéns

Anónimo disse...

"...ver o meu filho, no palco da luz?"

No palco da luz
Permaneço em silêncio
Penumbra e sombra
O teu claro e o meu escuro

Luz de todas as luzes
Infinito e supremo palco
Não desejado
Por fim consentido

Manuela Baptista
Estoril,28 de Julho 2008

Pé de Salsa disse...

Tenho passado por esta linda mas triste casa e limito-me a sair, devagarinho...

Hoje, embora com atraso, dou-lhe os meus parabéns e deixo-lhe um beijinho.

Isa

Isabel disse...

Parei.
Li e reli o comentário do "Pé de salsa".
Foi como se fosse eu a escrever este comentário...
Como se me visse a mim própria, ali naquela Isa com o seu "Pé de salsa".
Em tempos, tive um grupo de teatro na escola, chamado "Pé de salsa" e representámos uma peça do Sérgio Godinho "Eu, tu, ele, nós vós...", em que, a dado momento se torna necessário inventar uns pés para o misterioso "Ele".
E inventam-se os pés, recorrendo a um pé de salsa que está, ali,num vaso ao lado.
E eu assino, por vezes, Isa. Para alguns amigos...
Foi como se, de repente, todo o meu triste passado recente se esfumasse e regressei, por instantes, a um passado distante...feliz.
Obrigada, "Pé de salsa".
Isabel Venãncio