11 junho 2008

Junho -ainda ilusão



Tudo se comprime neste tão ínfimo espaço que é o meu sentir.
Tarda o encontrar um caminho mais seguro e claro por onde possa guiar os meus passos.
Para já e talvez para sempre (quem sabe!), a minha vida se resuma a isto - um fumo da dor que, inesperadamente, se instalou.
Talvez tenha que continuar a morrer de saudades cá dentro e esperar o que me couber, sem desejar nada.
Quero garantir que nada de ti se perca, nesta vertigem em que o tempo se transformou e em que te afastas, mais e para sempre.
Às vezes, dou por mim com lágrimas nos olhos, sem saber que estou a chorar.
E não é choro, é apenas o rio de dor a transbordar.
Estranho os destroços abandonados na estrada que, tão ausente de mim, percorri.
Como poderei compreender, um dia, que saíste?
E não regressas à noite?
Afinal, só assim se devia viver.

4 comentários:

Ana Cristina disse...

Tinhas prometido transcrever para esta casa as palavras "ditas" e escritas sobre o David...

Hoje liguei a televisão e estava a dar a grande entrevista na RTP1 com alguém que não conhecia.
Tenho visto pouca televisão; os meus dias são demasiado barulhentos e cheios de gente.
À noite prefiro o silêncio, a companhia do Alex e a música sentada no jardim..zinho!
Voltando à televisão e ao entrevistado ,ouvi duas palavras que me fizeram sentar não por muito tempo confesso: Outubro e Tumor. Alguém - Salvador Vaz da Silva - a quem foi diagnosticado um tumor em Outubro de 2007 estava ali a falar de como tinha sobrevivido, de como estava a viver uma segunda vida. Tem um blog (catedral) e publicou um livro ... nao consegui ouvir muito talvez pela raiva e outros sentimentos primários que me caracterizam.
Porque é que este Salvador teve uma segunda oportunidade e "prime time" na televisão para falar da sua luta contra a doença? Será uma questão do nome de quem encontra esta doença no trilho da vida?Desliguei a televisão e fui para o jardim ter com o Alex.As estrelas do céu abraçaram-me e envolveram-me com o toque do David.
O Alex deitou-se na relva junto de mim e o ruído acalmou.
Beijos. Nini.

(O José Gameiro sorriu quando lhe perguntei porque é que a sala de espera só tem revistas de moda, topmodels, beleza,maquilhagem, photoshop,compras em Milão,Paris e Nova Iorque!).

Anónimo disse...

Também ouvi o relato de Salvador Vaz da Silva e congratulo-me pelo seu exemplo de vida.De todos os comentários,que li,o da Ana Cristina despertou-me a atenção trouxe-me até aqui,à sua penosa situação.Lamento imenso a perda do seu filho.Sou um crente em fase de descrença e não consigo,por ora,mais do que envolvê-la afectuosamente neste sincero abraço de alma.António

Maria José disse...

a propósito de outro comentário...

também ouvi/vi, de passagem, porque logo saí dali, a entrevista ao Salvador/salvado do cancro.
Ainda bem que há quem dê um grande pontapé nessa porcaria dessa doença.
Mas lembrei-me do que escreveste, Isabel, no dia do cancro.
E os outros, os que apesar de toda a força, de todos os cuidados, de todos os afectos, são devorados, engolidos, por um monstro sempre a crescer? Não lhes é dada voz através dos que ficam e os acompanharam na difícil caminhada.
Porque só se pode falar de sucesso, do que é confortável, do que não incomoda? Falar de dor, de sofrimento é sujeito a pesada censura. E a nossa zanga cresce, sobretudo quando os mais novos, os que não deviam estar na fila da frente, vão antes de nós. Mesmo que não sejam os nossos filhos, é uma parte de nós que nos deixa. Cedo de mais. Por eles temos que continuar a falar. Aqui e onde for possível. Hoje estou muito melancólica e mais zangada. Pelo David. Pelo Filipe, pela Ana, pela Susana, por tantos outros que não conheci. E pelo Nuno que, com 34 anos, também não conseguiu dar o tal pontapé. Despedimo-nos dele ontem sob o mesmo sol abrasador e a mesma luz que nos cegaram e queimaram em outubro de 2007. Na mãe dele olhei ontem as outras mães, olhei para ti, Isabel. De mãe para mãe. Um beijo. Zé

Carecaloira disse...

Li o seu caso no blog do Salvador e resolvi visitá-la.
Fiquei impressionada e confesso que não entendo a sua maneira de encarar a vida mas quem sou eu??!!
Hoje na catedral deixaram uma mensagem para uma mãe que perdeu o seu menino com 5 aninhos. Resolvi deixá-la aqui para si, pode ser que comece a ver a vida com outros olhos.

A MORTE NADA É
Eu estou apenas noutro lado
Eu, sou eu, tu és tu.
Aquilo que éramos um para o outro
continuamos a ser.
Chamem-me como sempre me chamaram.
Falem-me como sempre me falaram.
Não mudem o tom da vossa voz,
Não façam ar solene ou triste.
Continuem a rir daquilo que juntos nos fazia rir.
Brinquem, sorriam, pensem em mim,
rezem por mim.
Que o meu nome seja pronunciado em casa como sempre foi:
Sem qualquer ênfase
Sem qualquer sombra.
A vida significa o que sempre significou.
Ela é aquilo que sempre foi.
O “fio” não foi cortado.
Porque é que eu
estando longe do vosso olhar
estaria longe do vosso pensamento?
Espero-vos, não estou muito longe,
somente do outro lado do caminho.
Como vêm
ESTÁ TUDO BEM

De certeza que o seu David gostaria que fosse assim, ele está sempre a vê-la.

Um beijinho de alguém solidário

www.careca-loira.blogspot.com