29 junho 2008


Há um ano, mais uma vez, me disseram que não havia hipóteses, perante o PET que o David fizera.
Há um ano e mais uma vez, implorei que não fosse dito nada ao David, da forma como me fora dito a mim.
Pai e médico disseram-me que ele tinha que saber...
Saber que não havia esperança?
Mais uma vez, expliquei que não devia destruir-se, assim, o optimismo (ainda havia) de um rapazinho de 29 anos.
Esse rapazinho só tinha projectos e sonhos a que se agarrar. Não era casado, não tinha filhos, não tinha fortuna, não tinha burocracia a organizar... Vivia com a mãe.
E queria viver.
Tinha a música.
Tinha a luz.
Tinha espectáculos e palcos a iluminar
Nesse dia (hoje), fomos, mais uma vez, almoçar fora, no Golfe. Com relvado imenso à volta. Lá lhe disse as coisas, à minha maneira. Sempre com a boca seca, o coração a cavalgar e um sorriso, enquanto o olhava sem pestanejar.
O David confiava em mim; não queria saber mais nada.
Era altura de partir para o estrangeiro.
E fomos uma e outra e outra vez.
Não me arrependo de nada. Não me lembro de quase nada para além dele...
Tudo foi como tinha que ser para que o David mantivesse a esperança que nunca o abandonou.
Dizem-me que fui boa mãe!
E daí?
Continuo sentada ao lado desse rapazinho, a caminho doutra esperança, em cada avião que passa.




Não há lugar para mim
neste país de Inverno.
As mães cegaram em seus ventres
e cada homem abandona
a juventude na cidade ácida.

Tínhamos o movimento da Terra
e eu compreendia as coisas
como se absorve a luz com os olhos.
Existiam as tuas mãos.

Ana Marques Gastão

5 comentários:

jaime latino ferreira disse...

INVERNOS

Há todos os lugares nos invernos/
Para Ti ou para mim há mais que infernos/
Mais do que a acidez d'uma luz crua/
O movimento da Terra continua/
-.-
Há sempre e por ele há mais ...!
-.-
P.S.
Minha Amiga,
Muito obrigado pela atenção que me prestou, saiba que estou solidário Consigo, continuo a escrever em salvadorvazdasilva.blogspot.com também a pensar em Si, o meu endereço é latino_ferreira@sapo.pt, Sou e ao Seu dispôr,

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 29 de Junho de 2008

Ana Cristina disse...

Porque regressas a esse passado que tanta dor causa?
Porque te martirizas com dúvidas?
Tu foste,és e serás uma boa mãe para o David e para o Sérgio e não precisas que ninguém to diga.
O teu amor pelos teus filhos sempre foi e é incondicional.
Outros poderão ter dúvidas, tu não.
Bjis.Nini

Jaime,
Um abraço.

jaime latino ferreira disse...

Ana Cristina

Nini,
Gosto do nome e vou, neste caso, usá-lo esperando que não se incomode.
No lugar de Sua irmã responderia e sem querer-Lhe tirar as palavras da boca que este já não é esse passado antes a recordação desse passado traduzido num bonito blogue, tanto pelos textos Seus ou emprestados, gráficamente ou pelas bonitas ilustrações que o pontuam e que deste modo, Sua irmã, não apenas mantém viva a memória de Seu filho como também, catársica, reúne forças para continuar já que estou certo, embora nem a um nem à outra Os conheça, ao David, seguramente, teria sido esse o Seu desejo!
Estou certo que assim será, um beijinho para Si, Nini, e para todos os Seus e que Sua irmã e a Minha Amiga me desculpem

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 30 de Junho de 2008

Ana Cristina disse...

Jaime

A paixão e o sentimento com que escreve dão alento a esta "Casa".

Quando aqui venho bem à noitinha tento,através das palavras e das fotos,ficar mais perto e perscutar de longe os passos da minha irmã.
Ela escreve com o coração de Mãe e é impossível não sentir a dor, a saudade,a ausência e todos os momentos vividos.
Uma bela história de amor,pode crer!
1 abraço com amizade da
tia Nini do David

jaime latino ferreira disse...

Nini,

Só agora, hoje dia 9 de Julho, vi esta Sua missiva que muito me gratifica e logo por Vós todos!

Eu vou passando por cá e ao sabor da pena, do teclado e esta tinha-me passado em branco e ao que sempre tanto gosto de acusar e corresponder.

Partilho Consigo o quanto através das palavras e das fotos, dispostas com rigor gráfico que a umas não suplanta ou esmaga as outras, Sua Irmã e com tanto critério dispõe neste blogue, permitindo prescrutar os Seus passos na dor que decidiu, é preciso ter coragem (!),
partilhar publicamente com o desconhecido já que, não só de familiares e amigos este espaço é visitado e cada vez mais.

É preciso ter coragem para o fazer e quem tem coragem tem força (!), porque esta coisa de nos expormos ou despirmos em frente dos outros e sobretudo saber como fazê-lo (!) é um acto de grande temeridade!!

De enorme ousadia!!!

Em carta anterior confessava-Lhe a Si, querida Nini, que por esta via já ía conhecendo Sua irmã ...

Ainda hoje de manhã, porém, e a conversar com a Manuela Lhe dizia que, por esta via e apesar de tudo, de Sua irmã ficamos apenas com uma visão distorcida porque apenas partilhamos do Seu reflexo neste cantinho embora se presuma que a vida de Sua irmã a ele não se resume nem tão pouco à entrega a uma dôr cuidada de sonho ...!

Nas entrelinhas do que a Isabel escreve deduz-se uma vida que não parou, que segue em frente, que tem interesses e logo os literários ou simplesmente estéticos que não quer guardar só para Si mas partilhá-Los e às Suas paixões, com todos também.

A paixão tem razões que a razão vai revelando e que também a mim me o impõem fazer, expondo-me, porque só pelos não escamoteados sentimentos e assim como Sua irmã o faz, aos outros também dão, paixão e sentimentos, o alento!

Aproveito e já agora esta carta para lhe confessar em primeira mão que a Manuela e eu temos uma amiga, Isabel veja lá (!), que se debate às portas da morte com uma doença fulminante e do foro oncológico que nos vai obrigar, provavelmente já amanhã, a ir ter com ela a Paredes, perto do Porto e que por tal, provavelmente ireis estar uns dias, Vós e a Casa de Salvador, sem terem notícias minhas.

Confirmá-lo-ei logo à noite, na Casa de Salvador Vaz da Silva.

O silêncio também é bom conselheiro mas logo que regressar, retomarei este meu hábito que Lhe confesso, Nini, a mim também me retempera as forças!

Se posso crer (!?) ... então não se vê!

Um beijinho e obrigado por tudo,

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Julho de 2008