18 junho 2008

8 meses



Continuo aqui.
Como poderia sair desta "casa", onde passo parte dos meus dias e onde regresso continuamente?
É aqui que todas as recordações permanecem intactas - os teus textos que revejo, os teus sons que distribuo pelos amigos, os meus próprios textos, as montagens de fotos que imprimo e guardo.
Como se te inventasse em nova vida, em tudo diversa da que foi.
Estou aqui, fechada com a outra parte que de mim se foi, e assim viverei...

A outra, a que ficou, anda cansada. Por vezes, quase a desistir duma vida em que não encontra sentido.
A outra, a que ficou, conta os dias.
Não retribui os olhares.
Esconde-se num silêncio cada vez mais pesado.
Talvez se trancasse em casa, se pudesse.
Desvia de si a atenção, falando muito e depressa (de qualquer coisa) para que os outros não tenham tempo de a olhar quando se instala um silêncio confrangedor e a boca lhe seca.
A outra, a que ficou, tem medo... um medo indefinido.
Esquiva-se, para ficar sozinha.
Inventa pretextos para adiar as rotinas da vida.
Anda anestesiada.
Percorre ruas e estradas num frenesim despropositado.
Procura (outras) razões (inventadas) para chorar e se indignar.
Tem sonhos sobre vidas que talvez tenha vivido mas de que não se recorda.
A outra, a que ficou, finge.


Esta, a que aqui está, nesta "casa", anda longe.
Senta-se em bancos de jardim de outros lugares distantes.
Continua a "fazer horas", à espera, enquanto dormes.
Mantem as janelas semi- cerradas; a "casa" na penumbra, para que nada te perturbe.
Está, aqui, neste cantinho.
Não te deixa só.
Passaram oito meses, desde que adormeceste.
Este é o teu sono mais longo...

1 comentário:

Ana Cristina disse...

"A minha janela guardada
Não sabe o tamanho que tem
Eu não sei se é quadrada
Se é redonda ou se nem
A sabendo à tabuada
Se vê tudo para além
Desde o princípio do nada
À alegria que vem"


1 bj.Nini