19 maio 2008

Olho-me, do passado. Ou olho a outra do passado?



Não sinto vergonha das minhas emoções nem de manifestar os meus sentimentos.
Que se espera de qualquer mãe que perdeu um filho?
Que engula em seco?
Que não chore?
Que não se sinta perdida?
Que não fale dele?
Que faça uns meses de luto e siga em frente?
Que ponha a máscara, ao sair de casa?

As pessoas vão crescendo, frias por dentro, sem um olhar atento para as outras que as rodeiam.
Vou-me apercebendo, agora, de que há bastantes mães que sofreram a perda de um filho.
É uma situação mais comum do que eu imaginaria… Vou conhecendo algumas.
Cada uma sofre, em silêncio, a sua dor, inigualável. Não é passível de partilha.
Somos egoístas...na dor.
Percebe-se, no olhar, a tristeza profunda que escavou e se instalou.
Cada filho é único, diferente de cada outro ... e a perda irreparável.
Uma parte da nossa carne foi arrancada e a ferida permanece aberta, por cicatrizar.

A minha reabre, sempre, ao pôr do sol e avança, noite dentro, quando o espírito fica mais solto e só já o silêncio me distrai.
Diz-se que se sentem os braços ou as pernas, muitos anos depois de terem sido amputados – membros fantasmas.
Serei um fantasma vagabundo, sob o sol do dia, e que vive, realmente, de noite, despojado já do lençol com que se cobre?
Ou será o contrário? Ainda não distingo.
Sei que sou duas.
Tenho (não quero dizer "tive") dois filhos!
Compreendam que tenho que ser duas.
Desde que não nos exijam mais do que é possível e façam de conta que não vêem uma ameaça de lágrima, no canto do olho de uma de nós, aprenderemos a coabitar.
As duas que somos, ainda, percorrem labirintos; uma não procura a saída.



...palavra de honra que deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito.

António Lobo Antunes

1 comentário:

Anónimo disse...

Como sinto e entendo tão bem o que escreves; as tuas palavras são claras e límpidas como afinal são também os teus sentimentos.
Tenho pensado muitas vezes como te tem sido possível sobreviver à dor e ao desespero.Não vale a pena responder; o ser humano é absolutamente excepcional e surpreendente.
Eu só tenho uma filha e sou só uma mãe mas tenho dois sobrinhos e sou duas tias.
Os meus dois sobrinhos "precisam" de tias diferentes e é isso que tento a todo o custo fazer.
Mas ser tia não é ser mãe!
Beijinhos. Nini