27 fevereiro 2008

Há um ano...

Os meus diários, as minhas agendas e as agendas do David permitem-me reviver aquilo que, eventualmente, possa esquecer. É pouco provável que alguma coisa relacionada com o meu filhote mais novo saia do labirinto da minha memória, mas, nem sempre consigo localizar, com exactidão o dia, a hora, o momento.

Hoje, tenho recuado, várias vezes, ao longo do dia, até ao ano passado - 2007.
No ano passado, neste dia, eu e o David partíamos para Santiago de Compostela, onde o Drumming ia apresentar o "Zapping - um tributo a Frank Zappa".
Tinha pedido ao médico que lhe desse uma folga nos tratamentos de quimio que fazia, sempre à segunda-feira. Estava, por isso, bem disposto e relativamente descansado.

Eu acompanhei-o, a pedido dele, tal como fiz muitas outras vezes, em que se deslocava para mais longe. Também eu tive oportunidade de experimentar a sensação de "andar na estrada"!
O David sentia-se mais seguro comigo por perto e também me cabia a tarefa de fazer com que não se esquecesse de tomar os medicamentos de hervanária que eu levava, sempre, numa mala térmica.

Foi um tempo bom. Ele gostava da "estrada", era meio cigano e adorava poder trabalhar em vários teatros. Sobretudo, gostava de ir a Espanha; achava que os espanhóis, neste caso, os galegos prezavam bastante a cultura.
E fez-se à estrada, com os rituais que lhe eram habituais - guardar material de luz a usar, pôr música a tocar, adaptar o auricular, óculos escuros, mangas da camisa arregaçadas, garrafa de água por perto e mapa das estradas actualizado, com percurso previamente estudado...
Tudo com grande profissionalismo!
Dessa vez, a música era tola - Corações de Atum, dos Ena Pá 2000 - só com disparates pelo meio. Mas não fazia cerimónia comigo ... eu era da equipa! E cada vez mais cúmplice...

Ainda passámos a buscar o colega do som, em Matosinhos.
Eu vim para o assento de trás.
E, durante toda a viagem, o David falou dos projectos que tinha, da empresa de gestão cultural que ia fazer, do percurso escolar e da pós-graduação que fizera, dos contactos que tinha em várias partes do mundo, dum artigo seu que saíra numa revista americana da especialidade, ....
Falou sempre, o tempo todo, sem manifestações de cansaço ou tristeza por ter a doença que tinha.
A doença era um acidente de percurso que ele ia vencer, com toda a certeza e optimismo com que contagiava toda a gente.
Eu, atrás, ouvia, ouvia e pensava como era espantosa a coragem e digidade daquele meu rapazinho.

Estivémos dois dias em Santiago de Compostela, dava-lhe distância para que ele não sentisse a presença da mãe e pudesse estar à vontade com os músicos (também amigos) do Drumming.
Só o ia "perturbar" às horas de tomar "os líquidos do Sr. António". Depois, sumia-me, outra vez...
Passeei-me pelas livrarias que encontrava, li nos cafés, visitei o Centro de Arte de Santiago de Compostela e comia umas coisas nas confeitarias, por perto. Ou ia até ao hotel e descansava porque também eu andava um pouco exausta do corropio que era a vida.
Mas valia a pena. Tudo valeu a pena porque o David só podia ficar bom.
"Há coisas que não podem acontecer!", dizia-me a minha amiga Teresa Bernardo. E tinha que ser assim, também para mim, para o Manel, para todos (e eram muitos!) os que adoravam o David.

Tudo parecia correr bem e, nessa altura, o tempo era de esperança. E o David conseguia ser feliz. Apenas isso interessava. Nada mais. Vivíamos para isso...

Mas, hoje, tudo me parece um sonho... Em que, às vezes, ainda não acredito.
E pairo neste intervalo!
Passou um ano... Estávamos em Santiago de Compostela.

Isabel

2 comentários:

Olga disse...

Realmente, há coisas que não deviam acontecer antes do tempo que é suposto ser normal!
Haverá uma explicação para o que aconteceu?!
Beijinhos

Ana Cristina disse...

Quem amava o David ainda não consegue acordar apenas porque a dor de não o ter connosco é insuportável.
Por isso vamos fazendo de conta.
Beijos.
Nini